Batismo de fogo no país mais supersticioso do mundo

Por Sharon Abdalla

Até o nome do país é polêmico. Oficialmente, é Mianmar desde 1989. Mas quem não gosta do governo militar ainda o chama de Birmânia (Burma). É pouco maior que Minas Gerais, com população de 57 milhões. Tem fronteira com China, Índia e Tailândia. Todos os homens vestem o Longhi, uma espécie de saia, ideal para o clima quente e úmido do país.

Foi lá a minha primeira missão no meu primeiro ano de trabalho na ONU, 1993. Mianmar queria melhorar sua imagem internacional e pediu apoio da ONU para aprimorar a qualidade de vida da população urbana. Representei o Programa de Desenvolvimento da ONU em parceria com o Banco Mundial e a ONU Habitat. O objetivo foi preparar um projeto para tentar desenvolver habitação de baixa renda, saneamento e transporte para parte dos três milhões de pessoas que haviam ocupado áreas periféricas da capital, Yangon.

Havia um desafio adicional: qualquer financiamento internacional teria que ser aplicado diretamente em melhorias locais, sem passar por vários intermediários no governo. Isso porque a Assembleia Geral da ONU havia criticado o regime militar de Mianmar e limitado ajuda internacional para o país. Por outro lado, havia um ponto crítico em cooperação internacional: o povo não é culpado pelo comportamento de seu governo. A busca desse equilíbrio foi instrutiva para mim. Nas reuniões em Yangon, sempre muito formais, vários generais com o peito coberto de medalhas diziam: “Estamos muito felizes em cooperar com a ONU”. E nós dizíamos: “Estamos muito felizes em cooperar com o povo de Mianmar através de seu governo”.

Mianmar é um país curioso. Todos são muito supersticiosos. Cada general tem seu astrólogo pessoal. Ex-colônia inglesa, o país proclamou sua independência às 4h20 da manhã do dia 4 de janeiro de 1948 – data e hora consideradas auspiciosas pelos astrólogos. Em 1970, o astrólogo do poderoso General Ne Win sentiu que a Birmânia havia se movido muito para a esquerda, então ordenou que os motoristas deixassem de dirigir do lado esquerdo da estrada, como se faz na Inglaterra, e dirigissem do lado direito. Em 1987, o mesmo general introduziu cédulas de 45 e 90 Kyat, porque os valores numéricos dessas notas somam nove, seu número de sorte.

Há um antigo embate entre o governo militar e a ganhadora do Prêmio Nobel Aung San Suu Kyi. Ela passou 15 anos em prisão domiciliar e foi libertada. A partir de um golpe militar em 2021, sofreu uma série de acusações e julgamentos. Em agosto de 2023, aos 78 anos, foi condenada a 27 anos de prisão, estando detida em local desconhecido.

O projeto não mudou os rumos do país, mas foi financiado e avaliado positivamente como uma contribuição modesta, mas efetiva para o desenvolvimento local.

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