Opinião

Sheyla Christina

Sheyla Christina

é a primeira arquiteta drag queen da América Latina. Criada em 2021, durante a pandemia, a personagem idealizada por Fábio Marxx aborda nesta coluna e nas suas redes sociais questões sociais e trivialidades do cotidiano, com muito conteúdo e humor. Desde que criou a personagem, Fábio construiu uma narrativa de sucesso unindo conteúdos sobre arquitetura e decoração com lifestyle.

Arquitetura por amor

5 surtos arquitetônicos

09/05/2024 18:16
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Escolher as peças certas é um processo superimportante na hora de decorar o lar. Sabe aquele momento em que você dá um grito de desespero e se pergunta: onde eu estava com a cabeça para comprar isso? Tenho certeza que você já passou por este momento ou, então, foi visitar uma amiga, familiar e, até mesmo, um boy que estava conhecendo e chegando na casa da pessoa quase voltou para trás ao se deparar com um hall todo estampado com papel de parede em arabesco, plantas artificiais espalhadas pela casa e uma TV pendurada em seu enorme, imponente e arrasador painel ripado.
Não se desespere, eu sou Sheyla Christina, a fada madrinha da arquitetura, a mãe do design, sobrinha de Oscar Niemeyer e amiga íntima de Burle Marx e tenho como missão de vida algo bem simples: levar mais beleza para o mundo e muitas verdades também, afinal de contas, “verdades merecem ser ditas”, e eu começo o primeiro texto da minha primeira coluna aqui em HAUS falando sobre eles: os surtos arquitetônicos.
Não pense que irá encontrar um texto como nas revistas tradicionais, cheio de termos técnicos e palavras difíceis, pois um dos maiores surtos da arquitetura é achar que ela não é para todos e que só alguns podem ter acesso. A verdade é que, além de criar espaços, hoje também desmistifico esse grande tabu, sendo responsável por levar o tema para todos os cantos, afinal de contas: arquitetura é para todes!
Dito isso, quero que você se prepare para uma aventura, como se estivesse deitada em seu quarto com quinze anos novamente, lendo sua revista "Capricho", mas agora sobre temas que realmente importam. Não que entender os cinco sinais para saber se seu crush estava ou não gostando de você não fosse importante, mas creio que não cometer esses cinco surtos nessa altura da vida seja muito mais relevante. Pois, no final de tudo, percebemos que homem é igual pedreiro, se ele está te enrolando é porque já está em outra obra. Agora, sua casa não. Sua casa é o seu templo e você não vai trazer qualquer profissional para adentrar as paredes do seu lar.

1. Painel ripado

Adobe Stock
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Começamos com esse tópico polêmico -- se não for para causar polêmica eu não estaria perdendo meu tempo escrevendo esse texto. Durante muito tempo o painel ripado foi visto como luxuoso, como algo incrível a que poucas pessoas tinham acesso e isso o fez se tornar "tendência" entre os profissionais, fazendo com que as ripas milimetricamente espaçadas invadissem todas as mostras de decoração e todas as revistas de arquitetura possíveis. Acontece que isso foi o suficiente para fazer todos os projetos ficarem iguais, como se estivéssemos falando de uma grande indústria da arquitetura na qual a alma de cada casa havia sido roubada e substituída por espaços sem charisma, uniqueness, nurve e, principalmente, personality.
Mas veja bem: o problema não está em usar o famigerado painel ripado em seus projetos ou na sua casa, colocar ele em detalhes ou até mesmo em sua sala valorizando a televisão de 82’ - até porque, pasmem com essa revelação: eu gosto do painel ripado! Pasmem ainda mais com essa outra: eu terei na minha própria casa.
O problema é usar o mesmo modelo feito em madeira freijó (aquele tom amarelo que deixa sua casa com cara de cenário das novelas do SBT dos anos 2000) com o mesmo espaçamento, mesma aplicação e mesmo formato. A fórmula perfeita para deixar sua sala genérica, pronta para sair na capa da revista de decoração local da sua cidade.
Painel côncavo Ciliart Marcenaria | Fábio Marxx
Painel côncavo Ciliart Marcenaria | Fábio Marxx
A evolução do uso do ripado está nos formatos, nas possibilidades, nas cores e nas infinitas formas de aplicação que a tecnologia nos proporciona. Dependendo do conceito do seu projeto, ele fica belíssimo revestindo a traseira de um balcão, em detalhes de algum móvel e até mesmo para camuflar as portas de um armário. Já vi ripados com cantos arredondados que facilitam a limpeza, em tamanhos maiores, que podem deixar o móvel mais imponente, e com diversas cores, o que permite sair da mesmice que sempre vimos desde que o ripadinho caiu nas trends. O importante aqui é ousar e pesquisar muito, pois nesse meio tempo surgiram muitas variações do ripado e com materiais diversos, o que fez com que ele ficasse mais barato também, tornando seu acesso mais abrangente para todo mundo que quer ter o queridinho dos arquitetos em casa.

2. Plantas artificiais

Px Here
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Vamos começar esse tópico com outra grande polêmica? Existem plantas artificiais bonitas. Elas são produzidas com galhos naturais e folhas feitas à mão de forma artesanal, o único problema dessas plantas são os valores que elas podem ter. Infelizmente, eu não conheço uma planta artificial com preço acessível que seja de bom gosto, elas sempre são verdes demais, artificiais demais, plastificadas demais e isso não orna com o requinte que você quer trazer para dentro da sua casa.
Se você não tem tempo para cuidar de plantas naturais, normalmente o meu conselho seria um só: não tenha. Mas como hoje eu tenho tempo e paciência para te ensinar, vou te trazer uma alternativa maravilhosa: as plantas secas.
Existe uma planta chamada capim dos pampas que fica supersofisticada na decoração e traz um ar acolhedor para sua casa. O único problema é a sujeira que ela pode fazer e o incômodo que pode gerar em pessoas com rinite, sinusite e todos os outros "ites" possíveis - nem tudo é perfeito. Porém, na internet você pode encontrar todos os preços possíveis. Uma vez eu peguei um bocado para decorar minha casa em um terreno baldio ao lado dela, lá em Curitiba (nas regiões e bairros menos urbanos é superpossível encontrá-la).
As possibilidades são inúmeras quando falamos de plantas secas (eu poderia fazer um artigo só sobre isso), mas o mais importante é ousar e pensar nas diversas combinações, desde flores, folhas, galhos e, até mesmo, os capins desidratados. Obviamente, a melhor saída e a mais saudável - até mesmo para o nosso psicológico - é ter plantas reais em casa, mas se você não pode, não tem paciência ou alguém que possa cuidar delas para você essa é uma ótima saída.

3. Sofá retrátil

Seguindo com polêmicas do Arch&Decor. Eu tenho até um pouco de medo de falar desse item, pois 110% da população brasileira tem ele em casa e quem não tem, quer ter! O queridinho do Brasil é grande, confortável, espaçoso, cabe uma família com filhos, netos, cachorros e periquitos de forma agradável. Porém, o que esse gigante tem de confortável, ele tem de (não vamos falar feiura, pois a beleza é relativa até mesmo na arquitetura) falta de artefatos e conceitos estéticos. “Ah, Sheyla, mas no design e na arquitetura a forma segue a função, então me deixa em paz com meu sofazinho retrátil”. Realmente, se formos seguir os princípios do Design Funcionalista do século 20 com essa frase icônica de Louis Sullivan fica difícil argumentar, a não ser que o seu sofá não tenha forma nenhuma, ninguém tenha pensado no seu design e o desenho seja apenas para suprir uma necessidade do mercado e não, necessariamente, trazer alguma paz e aconchego para o seu lar, seja visual ou ergonômico.
Em contrapartida, temos sofás muito confortáveis que foram desenhados para serem confortáveis no visual e na funcionalidade. Eu selecionei três para você se inspirar e colocar na sua sala, eles podem, sim, substituir esse elefante branco que serve apenas para que aquela sua amiga durma quando chega bêbada da balada. Realidades, né!

4. Lustre de cristal

Eu preciso revelar uma coisa! Tenho que admitir que quando comecei a fazer meus primeiros projetos, ainda em uma marcenaria na qual atendia a alta sociedade paranaense, coloquei muito cristal neles, muito vidro e muito mármore. Algumas imagens eu tenho guardadas até hoje (jamais vou revelá-las) e em alguns casos eu gostei do resultado – exceto um que me dá pesadelos até hoje, no qual a cliente me fez colocar a cabeceira estampada com tecido de oncinha, papel de parede de zebra, toda a savana nas almofadas do quarto e um lustre gigantesco em cima da cama roubando toda a luz do mundo para ela.
Quem sou eu para falar que o lustre de cristal deve ser banido de vez de todas as casas? Sim, eu sei. Eu sou Sheyla Christina e posso dizer, sim, para banir. Porém, venho aqui defender uma frase que ouvi quando ainda estava na faculdade: “não existe design mal feito e, sim, design mal empregado”. Talvez eu não concorde 100% com essa frase, mas de uma coisa eu sei: o cristal pode ficar muito chic e elegante, se esse for o estilo da sua casa.
Não adianta querer colocar um lustre clássico em uma casa moderna e nem vice-versa. Espaços bem pensados tem conceito e devem seguir uma proposta do início ao fim, afinal, estamos falando da sua casa (ou do seu cliente, se você for designer ou arquiteto) e não do showroom de uma loja de iluminação, no qual devemos mostrar todos os modelos existentes.
Lembre-se que estamos em 2024, vivemos nesta era, então vamos descobrir o que há de novo. Chega de espaços neoclássicos e poltronas Luís XV. Existem formas de criar espaços que expõem esse estilo clássico sem, necessariamente, deixar sua casa parecendo um castelo abandonado pela monarquia inglesa do século passado.

5. Guarda-corpo de vidro com efeito quebrado

Eu, definitivamente, não tenho o que falar sobre isso, só mostro o vídeo desta obra sendo feita e vocês me falam o que acham. Sinceramente, não consigo acreditar que alguém possa pagar para ter algo desse jeito em casa:
Deixando bem claro que eu acredito muito no design acessível. Às vezes, uma lata de tinta e um pincel podem resolver metade dos seus problemas e trazer um ambiente mais aconchegante, mas isso é assunto para falarmos no próximo mês. Tenho certeza que muitos vão concordar e outros tantos vão discordar das minha opiniões, mas é aquele velho ditado que eu sempre digo: não ouça críticas construtivas de quem nunca construiu nada. Afinal de contas, nós somos as arquitetas, então ouçam as brilhantes ideias que temos (não incluo todas nessa citação). Um Sheyro, Sheyla Christina, arquitetura por amor.