Mapa do Paraná pintado em 1903 é descoberto em restauro de prédio histórico
Um gigantesco mapa do Paraná feito em 1903 foi descoberto no prédio do Memorial do Ministério Público do Estado. Ao cortar uma parede para instalar uma tubulação, a equipe que fazia o restauro percebeu que havia algo incomum sob as muitas camadas de tinta.
Aumentando o ponto de prospecção, encontrou-se uma série de elementos que apontava que a pintura poderia ser um mapa. Foram chamados, então, a professora Nancy Valente, responsável pelo laboratório de conservação e restauração da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), e Claudio Forte Maiolino, professor de conservação e restauração na mesma universidade. “Essa é uma descoberta incrível porque, além do aspecto documental, há a retratação do Paraná antes do acordo final feito no final da Guerra do Contestado, em 1916”, avalia Maiolino. O conflito travado na região em que hoje é a fronteira entre o Paraná e Santa Catarina terminou com a perda de uma parte do território paranaense para o estado vizinho. Congelado no tempo, o mapa de 1903 ainda mostra o Paraná fazendo divisa com o Rio Grande do Sul.

“Eu não encontrei outro mapa daquele ano. Encontrei de 1904, e um muito simples de 1902”, afirma Nancy. Daí a grande importância histórica da descoberta. Infelizmente, a região em que estão Curitiba e o litoral paranaense acabou se perdendo em alguma obra anterior. Em algum momento da história do edifício, sem ter conhecimento da existência do mapa, uma porta foi aberta e uma pilastra foi incluída em um dos lados da parede, no local exato em que deveria estar a porção leste do Estado. Esse incidente também impediu que se identificassem os autores do desenho. “A gente imagina que o nome de quem fez estivesse no canto em que hoje estão a porta e a pilastra”, teoriza Maiolino.
Alguns indícios demonstram que o mapa pode ser sido usado como uma espécie de planilha de controle. É que o prédio em que ele foi pintado era utilizado, no início do século passado, por diversos órgãos do governo estadual, entre eles a Fazenda. “O mapa foi sendo complementado com o passar dos anos. Tem anotações a lápis nele, que também foram recuperadas e mostram que o mapa era utilizado pela Fazenda mesmo”, conta Maiolino. Os dois especialistas afirmam que é comum encontrar, em edifícios do fim do século 19 e início do século 20, pinturas de ambientação. Essa era uma das características da arquitetura eclética, muito adotada na época. Um registro documental como um mapa, entretanto, é objeto de arte muito mais raro de se descobrir.

Recuperar uma obra como essa exige técnica, paciência e muita delicadeza. Foram entre seis e sete meses de trabalho, com uma equipe de quase 20 pessoas para que o mapa voltasse a aparecer por completo. O primeiro passo foi amolecer as camadas de tinta que recobriam o mapa. “Depois de amolecidas, nós as recolocamos no lugar, fazendo a fixação e intercalando secagens. Quando elas estavam totalmente fixadas, aí a gente veio fazendo a remoção das camadas que estavam por cima”, explica Nancy. A maior parte do desenho foi recuperada manualmente, com a ajuda de bisturis. Depois, a equipe aplicou uma resina para realçar as cores do mapa. Por fim, uma camada de resina acrílica. De acordo com a professora, esse material leva quase 200 anos para envelhecer. “Nossa ideia foi de dar uma perpetuidade maior para o objeto e impedir que ele volte a se perder.”


*Especial para a Gazeta do Povo.
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