Lars Fisk já sobreviveu a dois furacões nos quatro contêineres de carga que considera sua casa. A estrutura, que ficava no cantinho do estacionamento do Costco, ao lado do Parque de Esculturas Socrates de Long Island City, no Queens, foi transferida, no ano passado, para um terreno estreito e cheio de mato em Red Hook, no Brooklyn.
Para se preparar para o próximo furacão, Fisk, 45 anos, escultor hábil que faz arte pública há duas décadas – e é o diretor de arte da jam band de Vermont, Phish, criando seus espetáculos elaborados à la Bread & Puppet Theater há quase o mesmo tempo – já está escolhendo os suportes.
Empilhados de dois em dois, lembrando peças de Lego, os contêineres fazem as vezes de uma casa simples, de um dormitório, que o dono decora com toques caseiros – como a espreguiçadeira de couro Eames, a estante cheia de badulaques sobre a escada estreita, a arte folk nas paredes forradas de madeira, o tapete puído, as claraboias e plantas penduradas em cachepôs de macramê. Uma grua fixa desponta pelas portas duplas de aço do andar superior, para içar móveis e objetos de arte.

Porém, com tudo fechado, jamais alguém pensaria que eles guardam algum resquício de vida doméstica – do tipo que serve perfeitamente às necessidades do talentoso e engenhoso Fisk, que diz “ter dado um jeito” na eletricidade e na água e paga um aluguel modesto pelo terreno. “Praticamente toda a casa é feita de sobras; a única coisa mais caprichada é o piso de madeira, que era da sede de uma fazenda na Pensilvânia”, explica ele.
Quando se faz arte pública como Fisk, aprende-se a ser econômico. “Tem sempre um jeito para dar uma segurada no estilo de vida, nas despesas, nas expectativas”, garante.


O artista Lars Fisk trabalha em na Lot Ball, inspirada por um estacionamento que ele já viveu perto. A maioria do trabalho do escultor pode ser encontrado ao ar livre. (Matthew Johnson/The New York Times)
Durante sete anos ele foi o gerente do estúdio e das instalações do Parque de Esculturas Socrates, um antigo aterro transformado em espaço de arte, museu e parque público, vivendo nos contêineres doados que o parque usa para armazenamento e espaço de trabalho.
Nos fins de semana, ficava horrorizado e hipnotizado pelas cenas que via da janela da cozinha: e se chocava com o contraste entre o campus do Socrates, área que dava a impressão de ser, segundo suas palavras, “rústica, sem-lei e coberta de mato”, e o espaço imenso da loja, mais parecida com um caixote gigante, “um trecho de asfalto imaculado pontilhado de anúncios, a sinalização para os carros e a multidão entrando e saindo”, segundo sua descrição.
Fisk chegou a entrar ali para comprar comida para os gatos umas duas ou três vezes – pois três animais que viviam no Socrates acharam seus contêineres tão confortáveis que decidiam se mudar para lá. E quando levou a residência para Red Hook, no ano passado, os felinos foram junto.
A operação foi simples: dois caminhões, uma empilhadeira e um dia de trabalho para levar e colocar os quatro contêineres no lugar. Por mais graciosa que seja, a casa não conta nem com metade do capricho que tinha no Queens, versão com direito a solário e até varanda. “Não cabia no caminhão, então tive que limar”, simplifica Fisk.

Depois de 10z anos em Burlington, Fisk se mudou para Nova York para cursar Belas Artes em Columbia; a seguir, fez a peregrinação a Joshua Tree, na Califórnia, para trabalhar com a artista Andrea Zittel em seu experimento desértico de decoração de contêineres.
Em 2008, o Socrates, onde Fisk se destacou como artista e expositor, lhe ofereceu um emprego e um contêiner. “Uma combinação irresistível”, confessa ele. No primeiro ano, transformou-o em seu escritório de campo, instalando um chuveiro à base de energia solar e uma cozinha externa. “Era bem básico”, relembra.
Depois de cinco, já tinha acrescentado mais três contêineres, além de um solário e varanda no anda superior. Hoje tem um banheiro seco (chamado Incinolet, é elétrico e queima os dejetos, transformando-os em cinzas) e uma banheira com pés de garras. Há um mosquiteiro sobre a cama que ele mesmo fez. Quando faz calor, dorme com as portas duplas abertas.
“Viver num contêiner não é ideal, mas é barato.” Os vazamentos são uma constante (embora Fisk garanta gostar do barulho da chuva batendo no metal), como também a condensação no inverno. “Se a temperatura externa é muito baixa e a interna, muito alta, a variação faz as paredes suarem o tempo todo”, explica.

Fisk também descobriu que água quente é um luxo sem o qual não pode viver e que 76 centímetros é a largura mínima com que seu corpo tem que lidar, seja na escadaria ou no batente da porta. Além disso, as dimensões padrão de 6 x 2,4 x 2,6 m são mirradas demais – e é por isso que decidiu montar a casa no esquema dois em cima e dois em baixo.
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