Arquitetura
Saiba por que você deve visitar Roterdã

Escadaria levantada temporariamente pelo renomado MVRDV para comemorar os 75 anos da reconstrução da cidade após a 2ª Guerra Mundial. Os 180 degraus levam os visitantes da Estação Central ao topo do Groot Handelsgebouw, um prédio emblemático de Roterdã. Foto: Ossip van Duivenbode/Divulgação | Ossip van Duivenbode
Roterdã é o parque de diversão dos arquitetos. Além de ser o QG de dois respeitadíssimos estúdios de arquitetura – a saber, OMA e MVRDV –, a cidade portuária do sul da Holanda tem atraído diversos escritórios jovens que têm achado espaço para inovar e transformar a paisagem. Ao incluí-la no top 10 de lugares que merecem ser visitados em 2016, a gigante editorial de guias de viagem Lonely Planet sentencia: Roterdã é “uma galeria a céu aberto de construções modernas, pós-modernas e contemporâneas”.

A liberdade experimental é uma constante nas diversas obras que pipocam pela cidade. Das excêntricas Casas Cubo projetadas no final da década de 1970 à recente floresta flutuante feita de material reciclado, de construções levantadas por robôs de última geração à ponte amarela de 400 metros financiada por crowdfunding para conectar áreas da cidade, do maior purificador de ar do mundo a um mercado que reúne arte, residências e espaços públicos.
Para o arquiteto Thiago Maso, que estudou projeto arquitetônico avançado na Universidade de Columbia, em Nova York, e que teve o privilégio de estagiar por seis meses no escritório fundado por Rem Koolhaas, a força da inteligência arquitetônica gerada lá está nas reflexões. “A visão que eles têm da arquitetura é de um processo e não de um objeto construído apenas. O fazer inclui muita discussão, muita teoria. Escrever é tão importante quanto desenhar. Na nossa tradição ibérica, construir é concretizar. Lá é o discurso”, defende. “Os prédios são vistos como objetos que vão te contar histórias de vida, que questionam como as pessoas se relacionam com a cidade. Sempre começa com uma pergunta. O que somos nós? O que significa a rua? O desenho é só uma consequência.”

Arquitetura simbólica
Existe um detalhe sutil que muitas vezes passa batido, mas que esclarece muito da cultura democrática expressa nas construções de Roterdã. Lá os nomes dos escritórios são verdadeiras sopas de letrinhas. Opção que valoriza o trabalho em equipe dos estúdios e não a personificação das ideias em uma única pessoa, como acontece com outros escritórios de renome pelo mundo.

Outro ponto forte da cidade é que não há apego a estilos ou repetição da linguagem formal dos edifícios. Cada projeto novo que surge é diferente do anterior, o que acaba por potencializar a diversidade arquitetônica da cidade. “Coisa que não acontece, por exemplo, com o modernismo brasileiro, que repete a mesma estética desde a década de 1950, com muito concreto, vidro e vãos gigantescos”, compara Maso.
Sem amarras
É preciso lembrar que a cruzada despretensiosa pela inovação que se observa em Roterdã só é possível graças também à legislação holandesa. Ela não é descritiva como aqui, que especifica muitas vezes o material, o tamanho e até a cor de certas estruturas, engessando o conceito do projeto. Por aquelas bandas, o que importa é a performance. Por exemplo: em vez de detalhar como deve ser o corrimão, a legislação holandesa se restringe apenas a exigir que o elemento impeça as pessoas de cair.

“A legislação urbana não pode ser uma camisa de força. Mas estamos no século 21 e tem gente que ainda acredita que urbanismo é plano diretor, é zonear. Lá não tem isso. O poder público incentiva as inovações, os empresários gostam da inovação e o público é consumidor de inovação”, destaca o arquiteto Frederico Carstens, da Realiza Arquitetura.

A história também tem sua parcela de culpa. Roterdã foi um dos locais mais bombardeados durante a Segunda Guerra Mundial, o que gerou espaço para inventar. “A cidade se beneficia disso agora. É a nova capital, como um bom laboratório, um bom espaço de testes”, sentencia o renomado artista holandês Daan Roosegaarde, que adotou Roterdã como sua.
“Aliado a isso, tem a tradição holandesa do planejamento. Por estarem abaixo do nível do mar, tudo que eles ocupam tem que ser bem planejado e pensado como será mesmo depois de 100 anos”, explica Maso. Logo em seguida o governo percebeu o potencial da cidade e criou diversos programas para financiar pesquisas e proposta para arquitetura, arte e design. Os resultados começaram a aparecer a partir dos anos 1990.