URBANISMO E CIDADES

Jonas Rabinovitch

Jonas Rabinovitch

Na coluna 'No Planeta das Cidades', Jonas Rabinovitch reflete sobre o que aprendeu convivendo com o pior e o melhor da arquitetura, do urbanismo e das artes pelo mundo afora. Arquiteto urbanista, trabalhou por 30 anos em Nova York como Conselheiro Sênior da ONU para inovação e gestão pública e foi convidado para atuar em mais de 80 países. Antes disso, foi assessor de Jaime Lerner no planejamento de Curitiba (PR).

Vozes

Qual o Futuro do Planejamento Urbano?

03/02/2026 15:17
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As cidades e seu planejamento estariam fadados ao fracasso? Fonte: National Geographic

Em 1961, a urbanista Jane Jacobs publicou seu livro “Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas”.  Ela criticou a forma como o planejamento urbano de Nova York, particularmente no Greenwich Village em Manhattan, estaria destruindo o conceito de vizinhança nas grandes cidades.  O livro ficou famoso porque também examina um conflito universal que existe até hoje: cidades motorizadas, com carros e viadutos destruindo o caráter humano de suas vizinhanças.
Todos nós conhecemos os desafios urbanos nas megacidades como Cidade do México, Tóquio e Xangai: poluição, engarrafamentos, desmatamento, enchentes, insegurança, saúde, educação, saneamento básico, etc.    
Mas o futuro da urbanização não será decidido por megacidades consolidadas como São Paulo, mas por lugares menores, de crescimento mais rápido, dos quais nunca ouvimos falar: Azogues no Equador ou Presidente Hayes no Paraguai, entre outras.  Também em países da África como Benin, Gana e Nigéria as cidades menores têm um incrível crescimento urbano médio de 4.5% por ano.     
Tóquio, megacidade com 30 milhões de habitantes, é considerada segura. Fonte: Geographical
Tóquio, megacidade com 30 milhões de habitantes, é considerada segura. Fonte: Geographical

A Encruzilhada Urbana

Tive o privilégio de ser convidado algumas vezes pela Universidade Internacional da Flórida (FIU) e Prefeitura da Região Metropolitana de Miami Dade para falar em nome da ONU na Conferência Interamericana de Prefeitos, um evento anual reunindo cerca de 500 prefeitos e autoridades locais em Miami.  O mais importante foi a oportunidade de discutir com atores locais os desafios de pequenas cidades em vias de crescimento.  Nos próximos 10 ou 20 anos essas cidades tomarão decisões de planejamento estratégico que poderão colocá-las no caminho da sustentabilidade próspera ou no caminho de congestionamentos, poluição e estagnação econômico-social, como a maioria das grandes cidades latino-americanas.
Minha mensagem foi simples: cidades são muito mais do que a mera externalidade econômica de um problema. Na verdade, existe uma estreita relação entre urbanização e sucesso econômico.  Hoje, quando metade da humanidade já está urbanizada, temos uma oportunidade única para fazer com que as cidades melhorem a qualidade de vida das pessoas, integrando urbanização a um engajamento cívico diversificado e modernizando processos de governança e administração pública.  A mensagem pode ser simples, mas a execução é complexa devido a conflitos de interesses - mas não impossível.  
Fato: a maior parte do crescimento urbano não ocorre mais em megacidades, mas em cidades entre 100.000 e 250.000 habitantes.  O problema é que quando uma cidade chega a ter 100.000 habitantes sua estrutura básica de crescimento muitas vezes já foi definida.  As decisões básicas de infraestrutura, transporte e zoneamento já podem ter sido tomadas.  De forma certa ou errada.  De modo geral, prevenir problemas urbanos é mais barato — muitas vezes de 10 a 100 vezes — do que solucioná-los depois que se agravam.  Investimentos proativos em planejamento urbano e manutenção de infraestrutura e serviços sociais são muito mais eficazes do que a gestão de crises.  Uma estimativa do World Resources Institute (Instituto de Recursos Mundiais, uma organização de pesquisa independente) sugere que o crescimento urbano proativo e compacto poderia economizar até US$ 17 trilhões até 2050.
Las Vegas "urban sprawl":  expansão urbana planejada, mas cara e massificada . Fonte: Britannica
Las Vegas "urban sprawl":  expansão urbana planejada, mas cara e massificada . Fonte: Britannica

O Plano Diretor:  Expectativas e Realidade  do planejamento urbano

A solução seria então elaborar um plano urbano para cada uma dessas pequenas cidades?  Claro que não.  Já sabemos há algumas décadas que o planejamento urbano deve ser um PROCESSO vivo de implementação constante e não apenas um DOCUMENTO estático.  Por exemplo, no caso do Brasil, a Constituição de 1988 e o Estatuto das Cidades em 2001 exigiram por lei a obrigatoriedade de planos diretores para cidades com mais de 20.000 habitantes.  Resultado: mais de 50% dos 5.569 municípios brasileiros de fato tem um Plano Diretor, mas a grande maioria não deu certo ou não deu em nada.  Não me entendam mal:  o Plano Diretor é uma lei municipal importante que deveria direcionar o desenvolvimento urbano, econômico, físico e social do município.  Mas, na prática, há muitos desafios no Brasil para se conseguir organizar por força de lei o uso do solo, transportes, habitação, e a preservação ambiental devido a obstáculos de natureza política.  
De modo genérico, a metodologia do plano diretor se origina na tradição de “master planning”, iniciada pelo urbanista escocês Patrick Geddes e outros por volta de 1910.  Ele introduziu sua metodologia de "levantamento antes do planejamento" (ou Levantamento-Análise-Planejamento) trabalhando em Edimburgo.  Com o tempo, essa metodologia se revelou inadequada para lidar com o crescimento rápido de cidades em países em desenvolvimento.  Mais tarde, a ideia de “Action Planning” (planejamento de ação) começou a ser aplicada em diferentes contextos com foco na resolução de problemas específicos, incluindo o engajamento de atores sociais através de parcerias e participação. 
Mas permanece o crucial desafio de equilibrar a resolução de problemas específicos com a consolidação de uma visão integrada da cidade.  Responder a esse desafio é o que faz uma cidade ser inteligente.      
Singapura: bom planejamento, mas restrições de espaço e alto custo de vida.  Fonte: Webuildvalue
Singapura: bom planejamento, mas restrições de espaço e alto custo de vida.  Fonte: Webuildvalue
Há no mundo cerca de 35 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes, mas já temos 12.000 cidades com 50.000 habitantes.  Essas cidades em vias de crescimento têm a opção de não repetir os mesmos erros cometidos pelas megacidades no passado. Estamos, de fato, numa encruzilhada.  As decisões políticas sendo tomadas dentro da próxima década definirão o futuro.  No entanto, essa oportunidade está se fechando rapidamente, principalmente para cidades menores na África, América Latina e Ásia, onde atualmente ocorre 90% do crescimento da população urbana.  Ao mesmo tempo, as pessoas não são um problema – elas são o recurso mais rico que temos e devem ser parte fundamental da solução.

Não basta a cidade TER um plano urbano; ela precisa SER o plano urbano

A solução, como eu disse, não é apenas ter um Plano Diretor, mas implementá-lo na prática.  Inspirado pelo exemplo de Curitiba, onde tive o privilégio de trabalhar, e outras cidades citadas abaixo, há de fato princípios universais que podem impulsionar a implementação de planos urbanos.  Alguns exemplos:   
·       Uma visão integrada colocada em prática na gestão diária de uma cidade pode ser tão ou mais importante que um Plano Diretor (Singapura, Tóquio, Hamburgo).
·       Uma cidade deve entender sua vocação econômica, para onde está crescendo e por que (Pittsburgh nos EUA, Tangiers no Marrocos).
·       O conflito de identidade entre crescer como uma “cidade motorizada” ou como uma “cidade em escala humana” precisa ser equilibrado no momento certo, permitindo um planejamento que harmonize as duas (Freiburg, Barcelona).  Existem milhares de cidades em crescimento prestes a tomar decisões que podem prejudicar irreversivelmente seu futuro.
·       Quando possível, seria importante considerar uma abordagem de preservação do meio ambiente natural, mantendo o traçado original de córregos, rios e áreas sujeitas a inundação - vinculando tudo isso a um sistema de parques, áreas verdes e à estrutura de crescimento da cidade (Estocolmo, Zurique).
·       As respostas tradicionais aos desafios urbanos mostram uma tendência de transferir problemas de um local para outro, iniciando círculos viciosos intermináveis que colocam as cidades em um caminho insustentável.  Viadutos e rodovias tendem a transferir congestionamentos de uma área para outra.  Retificar rios e construir extensas galerias pluviais subterrâneas pode simplesmente transferir os riscos de inundação de uma área para outra (Genebra e Seul têm bons exemplos de preservação ambiental de rios). Cidades de pequeno e médio porte poderiam embarcar em um caminho mais sustentável, considerando preservação histórica (Quito no Equador, Angkor no Camboja), áreas para pedestres (Marrakech, Cidade do México), projetos resilientes para prevenção de enchentes (Wuhan na China e Copenhagen na Dinamarca adotaram o princípio de “cidades-esponja”), desenvolvimento de estoques de terrenos para habitação de baixa renda antes da implementação de rotas de transporte (Vancouver no Canadá, Tacoma nos EUA), entre outras abordagens alternativas.
Zurich:  lazer e banho em rios limpos no centro da cidade. Fonte: Popupcity<br>
Zurich:  lazer e banho em rios limpos no centro da cidade. Fonte: Popupcity<br>

Conclusão

Para que o planejamento urbano tenha futuro, precisamos entender que a obrigatoriedade jurídica de um plano teórico não representa em si uma solução completa.  Se não existirem vínculos entre os investimentos municipais e os objetivos do plano, capacidade técnica local, parcerias com vários atores sociais, fiscalização e atualização do plano, incentivos e visão estratégica, o plano poderá ser apenas mais um volume perdido em algum arquivo de uma cidade qualquer.
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BAB: a nova vitrine da arquitetura brasileira

Conheça agora a Bienal de Arquitetura Brasileira — BAB — ela surge como um marco no cenário nacional, com o ambicioso objetivo de tornar a arquitetura mais acessível e próxima à vida cotidiana. Organizado pela Archa, o evento vai ocupar o Parque Ibirapuera, em São Paulo, entre março e abril de 2026, oferecendo ao público uma experiência plural com casas modelo, pavilhões temáticos, instalações interativas, oficinas e espaços sensoriais.
Mais do que uma mostra de projetos, a BAB propõe um diálogo com a diversidade cultural, social e geográfica do Brasil — reunindo expressões arquitetônicas de todos os estados, por meio de um concurso nacional que selecionará residências de cerca de 100 m² para representar cada unidade federativa. Nesse sentido, a Bienal reafirma seu propósito de valorizar a produção local, democratizar o acesso à arquitetura e mostrar como o desenho dos espaços é parte fundamental da vida em sociedade.