Oportunidade
Érika Poleto*
Vozes
O Rio de Janeiro, a Pequena África, e a Oportunidade de um Concurso

Concurso BNDES
A cidade do Rio de Janeiro se desenvolveu como um dos principais centros econômicos e políticos das Américas, tornando-se também um território profundamente marcado pela presença e contribuição africana. O tráfico transatlântico forçado fez da cidade um ponto central no desembarque de africanos sequestrados, cuja força, conhecimento e cultura moldaram a história e a identidade do Brasil. Em 1774, a transferência do mercado de pessoas escravizadas para a região do Valongo resultou na criação do Cais do Valongo, que se tornou o maior porto de chegada de africanos no país.
Mesmo diante das violências impostas pelo sistema escravista e das tentativas sistemáticas de apagamento histórico, o Valongo permaneceu um espaço de resistência e afirmação negra. Ali se consolidaram redes de sociabilidade, espiritualidade e cultura, reafirmando a centralidade da população afrodescendente na construção do Rio de Janeiro e do Brasil.
A região, conhecida como Pequena África, tornou-se um importante núcleo de preservação da memória e da cultura afro-brasileira, abrigando manifestações religiosas, artísticas e musicais, como o samba e as tradições de matriz africana. O
desvelamento do Cemitério dos Pretos Novos e do Cais do Valongo, além do reconhecimento deste último como patrimônio mundial pela UNESCO em 2017, reforçam sua relevância histórica e cultural.
A Pequena África é um espaço de grandeza singular, onde cultura, memória e resistência se entrelaçam em cada caminho e narrativa que se renova. Esse território consolidou-se como um baluarte da herança afro-brasileira, referência na construção da identidade nacional.
Para ampliar sua visibilidade, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com apoio do Consórcio Valongo Patrimônio Vivo (liderado pela Jaime Lerner Arquitetos Associados), lançou o Concurso BNDES Pequena África, de âmbito internacional.
O concurso busca selecionar as três melhores propostas para a criação de uma identidade visual para um Museu de Território. Os projetos devem integrar marcos históricos e percursos significativos por meio de intervenções de arquitetura, urbanismo, paisagismo e mobiliário urbano. Também devem promover uma conexão visual e sensorial que valorize a cultura africana e afro-brasileira no espaço público.
Os três selecionados receberão prêmios que somam R$ 130 mil. Para participar, cada equipe deve ter na liderança um arquiteto e/ou urbanista negro. As propostas serão avaliadas por uma comissão multidisciplinar de especialistas em arquitetura e urbanismo, cultura negra, patrimônio, sociologia e artes. Os critérios de premiação incluem conexão com a história local, impacto social e inovação.
Mais do que uma homenagem ao passado, essa iniciativa reafirma a presença e a permanência da cultura afro-brasileira no presente, desafiando desigualdades históricas e o racismo estrutural. Ao estimular uma consciência social ampliada, o concurso destaca a Pequena África como espaço de engajamento, memória e resistência, onde a identidade negra não apenas é preservada, mas celebrada e projetada para o futuro.
