Arte, História e Sociedade

Jonas Rabinovitch

Jonas Rabinovitch

Na coluna 'No Planeta das Cidades', Jonas Rabinovitch reflete sobre o que aprendeu convivendo com o pior e o melhor da arquitetura, do urbanismo e das artes pelo mundo afora. Arquiteto urbanista, trabalhou por 30 anos em Nova York como Conselheiro Sênior da ONU para inovação e gestão pública e foi convidado para atuar em mais de 80 países. Antes disso, foi assessor de Jaime Lerner no planejamento de Curitiba (PR).

No Planeta das Cidades

A curiosa relação entre sexo e arte

05/01/2026 10:53
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O Juízo Final de MIchelangelo, Capela Sistina

Campo, cidade e o início da civilização

As cidades e o campo representam hoje dois estilos bem diferentes de vida.  Mas você já pensou que a agricultura e a urbanização começaram aproximadamente na mesma época, há cerca de 10.000 anos atrás?  As cidades foram uma consequência direta do sucesso da agricultura.  Essa mudança revolucionária envolveu a domesticação de animais e plantas (trigo, cevada, arroz, milho, feijão), permitindo assentamentos permanentes e o surgimento de sociedades complexas, inicialmente no Oriente Médio, China e Américas.
A agricultura criou a civilização urbana permitindo um estoque de alimentos, vida sedentária, crescimento populacional, empregos especializados, governos e comércio.  A população mundial cresceu de um ou dois milhões em 10.000 a.C. para mais de 100 milhões em 1.000 a.C.. Foi o primeiro salto demográfico na história da humanidade.
Sistemas de irrigação na Mesopotâmia ajudaram a criar cidades.
Sistemas de irrigação na Mesopotâmia ajudaram a criar cidades.
A agricultura e o sexo, claro, contribuíram para isso.   Representações da sexualidade na arte são quase tão antigas quanto a própria arte.  As formas mais primitivas de arte tinham conexões muito interessantes entre sexo e agricultura.  Por exemplo, arqueólogos no século XIX começaram a descobrir pequenas estatuetas de mulheres robustas ou grávidas enterradas junto a plantações. 
Muitos arqueólogos acreditam que elas possam simbolizar fertilidade, especulando que os antigos colocavam estatuetas de mulheres grávidas ao lado das sementes para influenciar as colheitas e a fertilidade da mãe-terra.   É uma linda e poderosa interpretação.     
"Estatuetas de Vênus" eram aparentemente usadas para fertilizar colheitas 
"Estatuetas de Vênus" eram aparentemente usadas para fertilizar colheitas 

Arte e sexualidade   

A representação da sexualidade aparece na arte há milênios.  Mas essa relação só se tornou escandalosa quando a arte se chocou com tabus sociais nos milênios seguintes.   Quero ressaltar três exemplos curiosos:
1) Pompeia – em 79 d.C. a cidade foi coberta pelas cinzas da erupção do Monte Vesúvio, preservando assim os prédios e objetos por 1700 anos até o início de escavações arqueológicas.  Só que o mundo havia mudado.  Os arqueólogos ingleses da era vitoriana ficaram chocados com os artefatos eróticos, estátuas, afrescos e utensílios domésticos decorados com temas sexuais encontrados em Pompeia.  Em 1819, quando o rei Francisco I de Nápoles visitou a exposição de Pompeia no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles com sua esposa e filha, ficou constrangido com as obras de arte eróticas e ordenou que fossem trancadas em um "gabinete secreto", acessível apenas a "pessoas de idade madura e moral respeitável".  Reaberto, fechado, reaberto novamente e fechado mais uma vez por quase 100 anos, o Museu Secreto de Nápoles foi brevemente aberto ao público no final da década de 1960 (época da revolução sexual) e finalmente reaberto para visitação no ano 2000. Até hoje, menores de idade só têm permissão para entrar no antigo gabinete secreto na presença de um responsável ou com autorização por escrito.
Arte erótica em Pompéia, circa 79 d.C. 
Arte erótica em Pompéia, circa 79 d.C. 
2)  Michelangelo e a Capela Sistina - o afresco “O Juízo Final”, de Michelangelo, causou escândalo quando foi inaugurado em 1541, porque mostrava figuras nuas, incluindo santos e mártires, com genitais expostos.  Mais tarde, a Igreja Católica ordenou que certas partes fossem cobertas com mantos pintados para tornar a obra "modesta e decente".
3)  Gustave Coubert (1819 - 1877) e a “Origem do Mundo” - Coubert não é tão famoso como Van Gogh, Monet ou Picasso, mas teve o mérito de criar o realismo, influenciando o surgimento do impressionismo.  Ele rompeu com os padrões acadêmicos da época ao pintar cenas e pessoas comuns, de modo realista.  Em 1866, por encomenda de um diplomata, Coubert criou sua obra mais polêmica: “A Origem do Mundo”, um close-up total e detalhado dos genitais de uma mulher.  A obra permaneceu praticamente desconhecida do público durante um século, sendo vista apenas em coleções particulares. Quando finalmente exibida, especialmente após sua chegada ao Musée d'Orsay em Paris em 1995, foi recebida com entusiasmo e choque, mesmo mais de um século após sua criação. 
A Origem do Mundo, Gustave Coubert, 1866
A Origem do Mundo, Gustave Coubert, 1866
A pintura de Coubert continua sendo altamente controversa e provocante, levando a tentativas de censura em plataformas como o Facebook e debates sobre seu lugar na história da arte.  Em 2011, o professor francês Frédéric Durand processou o Facebook por ter sua conta suspensa por ter publicado essa pintura de Coubert em sua página.  Isso levou a uma batalha judicial de vários anos. Os tribunais franceses rejeitaram as alegações de jurisdição do Facebook e concluíram que a empresa havia violado o contrato do usuário.  O caso foi finalmente resolvido em 2019 com um pagamento por parte do Facebook de uma quantia não divulgada.
A população mundial é de cerca de 8.3 bilhões de pessoas, o que significa que há pelo menos cerca de 4 bilhões de vaginas (devidamente cobertas) circulando pelo mundo.  Não parece curioso que a mera representação artística de apenas uma delas ainda causa tanta controvérsia, em pleno século XXI?  Enfim, isso não teria acontecido em Pompéia. 
Pessoalmente, eu não colocaria uma pintura de uma vagina em minha sala de estar, acho que isso não acrescentaria nada.  Mas, como sempre, tudo é uma questão de gosto pessoal.  
Enquanto para alguns a arte tem a nobre função de elevar o espírito humano, outros acham que a arte também tem o dever de desafiar tabus sociais.  Ou talvez as duas coisas?    
O debate continua.    
Texto escrito por Jonas Rabinovitch 

BAB: a nova vitrine da arquitetura brasileira

Bienal de Arquitetura Brasileira — BAB — surge como um marco no cenário nacional, com o ambicioso objetivo de tornar a arquitetura mais acessível e próxima à vida cotidiana. Organizado pela Archa, o evento vai ocupar o Parque Ibirapuera, em São Paulo, entre março e abril de 2026, oferecendo ao público uma experiência plural com casas modelo, pavilhões temáticos, instalações interativas, oficinas e espaços sensoriais.
Mais do que uma mostra de projetos, a BAB propõe um diálogo com a diversidade cultural, social e geográfica do Brasil — reunindo expressões arquitetônicas de todos os estados, por meio de um concurso nacional que selecionará residências de cerca de 100 m² para representar cada unidade federativa. Nesse sentido, a Bienal reafirma seu propósito de valorizar a produção local, democratizar o acesso à arquitetura e mostrar como o desenho dos espaços é parte fundamental da vida em sociedade.
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