No planeta das cidades

Jonas Rabinovitch

Na coluna 'No Planeta das Cidades', Jonas Rabinovitch reflete sobre o que aprendeu convivendo com o pior e o melhor da arquitetura, do urbanismo e das artes pelo mundo afora. Arquiteto urbanista, trabalhou por 30 anos em Nova York como Conselheiro Sênior da ONU para inovação e gestão pública e foi convidado para atuar em mais de 80 países. Antes disso, foi assessor de Jaime Lerner no planejamento de Curitiba (PR).

No Planeta das Cidades

Como serão as cidades do futuro?

19/05/2023 19:00
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As cidades do futuro serão como as cidades de hoje. | Reprodução

Em 1925, a revista americana “Popular Science” publicou estudos do arquiteto Harvey W. Corbett e outros sobre cidades do futuro. Deu tudo errado. Quem viu ‘’Os Jetsons” ou “Flash Gordon” sabe que eles imaginavam cidades do futuro com carros voadores e edifícios de 300 andares. Não será nada disso. As cidades do futuro serão como as cidades de hoje.
Para entender por que, é importante ressaltar a diferença entre uma invenção e uma inovação. Uma invenção é um objeto, um gadget, uma “engenhoca”. Celulares, computadores e automóveis são engenhocas. É claro que são engenhocas fantásticas que mudam a vida de milhões de pessoas.
Uma inovação é um processo. Uma cidade não é um objeto, mas contém processos ligados a desafios sociais, econômicos, políticos, físicos e ambientais. As cidades são uma das mais complexas criações humanas. Elas evoluíram como consequência do crescimento econômico global. Quando o Brasil foi descoberto pela Europa em 1500, o PIB mundial era de US$ 250 bilhões. Permaneceu estável até a revolução industrial. Depois, cresceu rapidamente até os atuais US$ 97 trilhões.
Esse impressionante crescimento econômico foi possível devido às economias de escala permitidas pelas cidades, concentrando capital humano, empregos, tecnologia, densidade espacial e acesso a crédito.
Vivemos num mundo em rápida urbanização, afetado por mudanças climáticas, desemprego, degradação ambiental e exclusão social. Atualmente, cerca de 56% da humanidade vive em cidades. Em 2050, serão 70%.
As cidades consomem cerca de 75% da energia primária mundial e são responsáveis por 70% das emissões causadoras do efeito estufa, devido às indústrias e transportes. Por outro lado, as cidades são unidades extremamente eficientes. São motores de crescimento econômico gerando 80% do PIB mundial, enquanto ocupam apenas 2% da área do planeta. Cidades são cenários para inovação e soluções.
A ONU já organizou três conferências sobre cidades. Na primeira, em Vancouver, em 1976, as cidades eram o “inimigo” a ser combatido. Os países acreditavam em impedir a urbanização e o êxodo rural por meio de políticas públicas. Não deu certo. As cidades continuam crescendo. Na segunda conferência, em Istambul, em 1996, os países concluíram que a urbanização é irreversível e ressaltaram a dimensão humana das cidades.
Na terceira conferência, em Quito, em 2016, a “Nova Agenda Urbana” concluiu que as cidades podem e devem ter uma contribuição positiva nas questões sociais, econômicas e ambientais – promovendo equilíbrio social e acesso a serviços, entre outros aspectos.
Existe agora uma oportunidade única: a maior parte do crescimento urbano ocorre em cidades entre 100 mil e 250 mil habitantes. Essas cidades têm a opção de não repetir os mesmos erros cometidos por megacidades no passado. Senão, o futuro será catastrófico.
Invenções digitais talvez possam facilitar algumas decisões, mas não se iludam: o computador nunca irá substituir a estupidez humana. É uma encruzilhada. As decisões políticas sendo tomadas agora em nossas cidades – repito, em 2% da área do planeta – vão definir se teremos um futuro sustentável para todos ou não.
O contraexemplo das megacidades já fala por si: precisamos de mais Curitibas e menos Delhis, Shanghais e Dhakas.
As cidades do futuro não serão inteligentes se os que tomam decisões não o forem. Entender melhor os processos, desenhos e potenciais contidos em cada cidade e depender menos de engenhocas digitais já seria um bom começo.

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