Antiga fábrica da Ambev abandona projeto de uso cultural para virar complexo administrativo das polícias

Por Gilmar Longato
Prédio industrial vai se tornar nova Cidade da Polícia. Gestão anterior previa Centro de Artes e Cultura Rebouças. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo
Prédio industrial vai se tornar nova Cidade da Polícia. Gestão anterior previa Centro de Artes e Cultura Rebouças. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

A antiga fábrica da Ambev, área histórica de 35 mil m² na região do Rebouças, em Curitiba, deixará de receber o Centro de Artes e Cultura Rebouças para se tornar a Cidade da Polícia — novo centro administrativo de planejamento e inteligência do estado, polícias militar e civil, guardas municipais, polícias Federal e Rodoviária Federal e Exército. A criação do espaço — não necessariamente nesta área da cidade — foi uma das promessas de campanha do governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD). O projeto de reforma do imóvel está em desenvolvimento pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e Administração Penitenciária. A reportagem confirmou o novo uso do prédio junto da assessoria do governo do estado e da Polícia Militar.

O novo uso do local dá lugar ao projeto do Centro de Artes e Cultura Rebouças, que estava em desenvolvimento desde agosto de 2016. Ele receberia instalações da Faculdade de Artes do Paraná (FAAP) quanto da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap). A ideia do projeto previa movimentar a região com mais pessoas e deixar um legado cultural para Curitiba, com auditórios, laboratórios, salas de aula e de exposições.

Unidade da empresa na Avenida Getúlio Vargas está desativada desde 2016. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Unidade da empresa na Avenida Getúlio Vargas está desativada desde 2016. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Segundo Paulino Viapiana, ex-assessor especial do governo do Estado, o projeto do centro estava encaminhado: o termo de referência das necessidades de uso do prédio já estava concluído e o modelo de edital para o concurso público estava em estágio avançado de desenvolvimento. “Em dezembro do ano passado, a [ex-governadora] Cida Borghetti concluiu a transferência da escritura do terreno para o governo do Estado. Tudo restava pronto”, afirma.

Lamento que a cultura e a educação novamente tenham sido preteridas. Nós vamos deixar de promover uma boa ideia para a formação das futuras gerações e para a preservação de uma região importante da cidade. E as escolas de arte vão continuar perdidas por aí, sem condições, em prédios alugados”.

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Para Iaskara Florenzano, coordenadora de pesquisa do grupo Arquivo/Arquivo Industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a preservação do prédio da fábrica — e sua consequente não demolição — já é um ponto positivo. “A preservação é a melhor notícia que podemos ter para o Rebouças“, afirma a pesquisadora, que se debruça a estudar e registrar os prédios industriais do bairro.

Terreno de 35 mil m² ocupa o quarteirão entre as avenidas Getúlio Vargas e Iguaçu, e ruas João Negrão e Rockfeller. Foto: Agência Curitiba / Divulgação
Terreno de 35 mil m² ocupa o quarteirão entre as avenidas Getúlio Vargas e Iguaçu, e ruas João Negrão e Rockfeller. Foto: Agência Curitiba / Divulgação

“Esse prédio é portador de uma série de valores culturais e históricos e faz parte desse conjunto de edifícios que explicam a nossa cidade, que se estabelecem no começo do século 20. Acho magnífico que ele ganhe um uso novo, se o projeto observar esse caráter histórico usando a metodologia do restauro”, explica.

No entanto, Florenzano aponta que seu novo uso não é o mais adequado se a intenção é dar um novo sentido ao prédio e requalificar a região do Rebouças. “Um edifício da polícia não me parece um uso tão adequado desse objetivo. Se eu quero revitalizar um lugar, ele deveria receber bastante gente e não apenas funcionários“, estima. “A ideia do uso com arte era perfeita, porque a região tem uma vocação para a educação e a Embap tem uma necessidade real de um espaço físico. Uma movimentação naquele lugar daria um sentido completamente novo naquela região —seria um sonho”.

Para ela, a esperança é a de que o prédio seja tratado como patrimônio histórico, e que a reforma valorize a memória e a identidade do edifício e da sua importância para a paisagem da cidade.

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