Em ano difícil para a economia, mercado imobiliário cresce em vendas e bate recorde de financiamentos

Por Gilmar Longato
Índice FipeZap aponta alta no preço dos imóveis residenciais em 49 das 50 cidades analisadas.
Índice FipeZap aponta alta no preço dos imóveis residenciais em 49 das 50 cidades analisadas.

De todos os lugares, nenhum alcançou tamanha relevância em 2020 quanto a casa. Antes quase um espaço de pouso, ela se tornou sinônimo de segurança e retomou seu papel como fonte de qualidade vida em tempos em que o isolamento social ainda é realidade. Esta busca por mais bem-estar no espaço privado, inclusive, é um dos fatores que ajudam a explicar a alta nas vendas de imóveis novos no Brasil mesmo diante de um cenário econômico ainda preocupante, com previsão de PIB (Produto Interno Bruto) negativo para o ano em 4,55%, apenas para citar um exemplo.

Nos primeiros nove meses de 2020, 128.849 novos apartamentos foram comercializados no país, número 8,4% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado. Quando se analisam apenas os dados do terceiro trimestre, que somou 54.307 unidades negociadas, a alta é de 23,7% no comparativo com os iguais meses de 2019 e de 57,5% em relação ao segundo trimestre de 2020. Os dados são do estudo Indicadores Imobiliários Nacionais do 3º trimestre de 2020, realizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai Nacional), em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, e apresentado nesta segunda-feira (23).

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"A pandemia trouxe uma valorização muito grande do lar, da casa, da família, das pessoas e desse bem. O que temos como a razão principal de todo esse aquecimento é isso. E, logicamente, a redução da taxa de juros", constata o presidente da CBIC, José Carlos Martins, ao fazer referência aos atuais 2% da taxa Selic, que deverá ser mantido até o fim de 2020 conforme projeção do Relatório de Mercado Focus, divulgado nesta segunda-feira (23) pelo Banco Central.

O porcentual torna atrativa (e possível para muitas famílias) a contratação do financiamento imobiliário, que também tem crescido de forma constante. Só no último mês de setembro, os valores financiados somaram R$ 12,91 bilhões, 10,2% a mais em relação ao mês anterior e 70,1% superiores aos registrados no mesmo mês do ano passado. O montante é recorde, em termos nominais, na série histórica divulgada pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), iniciada em julho de 1994, que tem como base os financiamentos obtidos com recursos das cadernetas do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE).

Nos primeiros nove meses de 2020, o acumulado também é de alta com um total de R$ 78,8 bilhões em empréstimos destinados à aquisição e construção de imóveis, 44% a mais frente aos R$ 54,72 bilhões registrados entre janeiro e setembro de 2019. Aquele valor corresponde a um total de 279,1 mil unidades, 34,4% a mais do que no igual período do ano passado.

Apetite

A alta nas vendas não é sinônimo de satisfação do apetite de compra por parte de quem sonha com a casa própria ou em fazer um up grade de imóvel. A intenção de adquirir o bem cresceu 15% no mês de outubro e é manifestada por 46% dos 1,4 mil entrevistados pela pesquisa, ante os 40% registrados em agosto - dado anterior ao deste último levantamento. O porcentual também é superior, inclusive, aos 43% das pessoas que diziam ter o desejo de comprar um imóvel antes da chegada do novo coronavírus ao Brasil e 130% superior aos 20% registrados em abril deste ano, pior desempenho do indicador durante a pandemia e tido como porcentual basal para o setor.

"Dos 46% de pessoas que querem comprar imóveis, 13% já estão pesquisando, sendo que o [indicador médio] desta parcela é 8%. Mais pessoas do que o normal estão efetivamente procurando um imóvel, trocando informações com imobiliárias ou incorporadoras. [Este comprador] não está passivo, apenas olhando o imóvel pela internet. Ele está no processo de busca ativa do bem, e isso é muito importante", acrescenta Fábio Tadeu Araújo, sócio-diretor da Brain Inteligência Estratégica.

Para elas o desafio está em conseguir aliar a disponibilidade de crédito a juros baixos à escolha do imóvel dos sonhos. Isso porque a oferta de apartamentos novos caiu 13% entre janeiro e setembro deste ano comparado ao mesmo período de 2019, com 151.051 unidades em estoque. Este volume seria suficiente para atender a demanda de 10 meses de vendas, considerando a média dos últimos 12 meses e caso não houvesse mais novos lançamentos nos próximos períodos.

As vendas dos apartamentos novos estimulam a baixa no estoque, mas não respondem sozinhas por ela. A queda no volume de lançamentos, especialmente no primeiro semestre de 2020, devido aos impactos iniciais da pandemia, fez com que o acumulado entre janeiro e setembro deste ano ficasse negativo em 27,9%, tendo como base o igual período de 2019. No total, foram colocados à venda 85.755 novos apartamentos nos primeiros nove meses de 2020, contra 118.886 entre janeiro e setembro do ano anterior. No terceiro trimestre de 2020, por sua vez, foi registrada alta de 114,1% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

"Devemos terminar o ano [com um volume de lançamentos] em torno de 15% a 20% menor quando compararmos o ano de 2020 com 2019. Em contrapartida, nas vendas já estamos com 8,4% positivos em número de unidades, o que poderá se acentuar neste último trimestre. Vai depender muito se o apetite por lançamentos irá continuar nas diversas regiões do país. As vendas poderão superar de 10% a 15% o número de unidades comercializadas em 2019", projeta Celso Petrucci, vice-presidente de área da CBIC e presidente da Comissão da Indústria Imobiliária (CII) na mesma entidade. "Essa queda de 15% [nos lançamentos significa] voltar aos patamares de 2018, e não de 2016 ou 2017, que foram bem abaixo [da média]. E em vendas, em se crescendo os 15% previstos pela CBIC, 2020 será o ano de maior volume de [unidades comercializadas], o recorde de toda a série histórica, em cinco anos de pesquisas", acrescenta Araújo.

Desafios

Para que isso se concretize, no entanto, o setor terá de enfrentar alguns desafios. O principal deles diz respeito à retomada do equilíbrio no fornecimento e também ao custo dos insumos, que vem sofrendo aumento, o que, segundo a CBIC, pode justificar a cautela dos empresários em retomar o volume de lançamentos represados devido à pandemia.

"Nossa preocupação principal, hoje, reside no desabastecimento de insumos. Nós tivemos problemas muito graves no terceiro trimestre deste ano, um desabastecimento que gerou dois subprodutos: primeiro, logicamente dentro da lei da oferta e da procura, aumento de preço e, segundo, os atrasos de entrega. Se isso não for resolvido para o ano que vem, é um temor que temos em relação ao volume [de obras e de lançamentos que vislumbramos]", aponta Martins.

O aumento de custos dos insumos, aliado à redução da oferta e do número de novos lançamentos, pode contribuir, também, para uma alta no preço final dos imóveis novos, que já vem sofrendo alteração. Segundo o estudo, o indicador de preço médio das unidades está em 121, ou seja, 21 pontos acima da média 100, tida como base pela CBIC.

"Praticamente estamos transferindo o otimismo que tínhamos para o mercado de 2020 para o mercado de 2021. Com as ressalvas sobre o aumento [do custo] dos insumos, das reformas que o governo irá continuar, do cumprimento das metas fiscais e do teto dos gastos, acreditamos que podemos transferir essas expectativas positivas que esperávamos para este ano para 2021. Tudo leva a crer que teremos crescimento no próximo ano em relação a 2020", finaliza Petrucci.

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