Estilo & Cultura

Quem é Ai Weiwei, sua relação com a arquitetura e outros bons motivos para visitar a exposição dele

Aléxia Saraiva
02/05/2019 21:52
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A maior exposição individual do artista chinês Ai Weiwei chega a Curitiba no dia 3 de maio. A obra Sementes de Girassol está entre elas, com milhares de sementes feitas por 1.600 artesãos chineses, uma diferente da outra. Assim, levanta debate sobre a produção em massa e perda da individualidade. Foto: divulgação | Getty Images

Quais são as raízes que formam a história de um povo? É possível que essas raízes sejam completamente apagadas? Para o artista chinês Ai Weiwei, não — e é a busca por essas raízes que serve de fio condutor para a arte que fez durante sua vida, obras essas que a partir desta sexta-feira (3) estarão expostas no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, na mostra Ai Weiwei Raiz.
Exposição fica no Museu Oscar Niemeyer até o dia 28 de julho. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Exposição fica no Museu Oscar Niemeyer até o dia 28 de julho. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
É fundamental conhecer o contexto do artista para se compreender as dimensões entre arte e política presentes na sua obra, a começar pelo fato de que Weiwei é filho de Qing Ai, um dos maiores poetas do país, e que era criança quando sua família foi exilada em campos de trabalho forçado na região do deserto de Gobi por conta da Revolução Cultural chinesa.
“A revolução era sobre romper com tudo que existia de passado. Destruir todas as antiguidades, as receitas de comida, queimar os livros, apagar a memória. O resto da vida de Weiwei é a tentativa de se reconectar com coisas que estão cifradas, perdidas, deslocadas“, conta Marcello Dantas, curador da mostra e idealizador dos trabalhos de Weiwei no Brasil.
Na obra "Deixando cair uma urna da Dinastia Han", Weiwei recriou em Lego as imagens de quando efetivamente quebrou uma urna, relembrando a Revolução Cultural e registrando o momento em três fotos. A ideia de usar Lego é que todas as milhares de peças são iguais umas às outras. Foto: divulgação
Na obra "Deixando cair uma urna da Dinastia Han", Weiwei recriou em Lego as imagens de quando efetivamente quebrou uma urna, relembrando a Revolução Cultural e registrando o momento em três fotos. A ideia de usar Lego é que todas as milhares de peças são iguais umas às outras. Foto: divulgação
Segundo Dantas, o artista Weiwei surge no dia em que seu pai decide arrancar e queimar as folhas dos poucos livros que ainda tinha à época. A intenção era fazê-lo olhar para as obras uma última vez, já que a punição seria muito maior se alguém os pegasse com eles. “E nesse momento nasce o artista que vai tentar buscar raízes perdidas“, afirma o curador.
Marcello Dantas, curador da mostra. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Marcello Dantas, curador da mostra. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Raízes também brasileiras

Foi Dantas que, em 2011, fez o convite para que Weiwei viesse buscar raízes também no Brasil. A ideia foi postergada por conta de uma prisão do artista, que só em 2015 recuperou seu passaporte. Foi então que ele veio ao Brasil e, durante três anos, trabalhou com artesãos chineses e brasileiros em cidades como Trancoso (BA) e Juazeiro do Norte (CE).
Obras de Juazeiro do Norte (CE) relembram os ex-votos da região e foram feitas em parceria entre artesãos chineses e brasileiros. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Obras de Juazeiro do Norte (CE) relembram os ex-votos da região e foram feitas em parceria entre artesãos chineses e brasileiros. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Essa dinâmica de troca mútua de experiências e culturas que transcenderam a própria linguagem dos artesãos — que não falavam nenhum idioma em comum — foi o que Weiwei batizou de mutuofagia.
Fotografia "Mutuofagia" abre a exposição. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Fotografia "Mutuofagia" abre a exposição. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
“Eu tentei explicar pra ele o que era o conceito da antropofagia na cultura brasileira: absorver o outro dentro da gente e transformar em outra coisa. Isso se tornou uma coisa muito simbólica desse processo: eu estou te devorando e estou sendo devorado por ti. Eu desenterro a raiz e a raiz me desenterra. E essa busca inspirada pela raiz ultrapassa a linguagem”, explica Dantas.
As raízes literalmente integram a mostra. Elas foram uma saída do artista para criar obras que unem os contextos culturais chineses e brasileiros. Elas foram elaboradas em Trancoso (BA), baseadas em raízes e troncos nativos que estavam expostos na terra como remanescentes do desmatamento e causas naturais. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
As raízes literalmente integram a mostra. Elas foram uma saída do artista para criar obras que unem os contextos culturais chineses e brasileiros. Elas foram elaboradas em Trancoso (BA), baseadas em raízes e troncos nativos que estavam expostos na terra como remanescentes do desmatamento e causas naturais. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
É nessa lógica que imigração e a crise dos refugiados são temas frequentes para o artista. “As fronteiras são uma abstração, é uma coisa de outro dia na história da humanidade. A Itália tem 150 anos, quase todos os países da África foram desenhados nos últimos 50 anos. Nós vamos sempre precisar sair de um lugar para o outro, e é por isso que o mundo é bom. Se todo mundo tivesse ficado no seu lugar, ele não teria se desenvolvido nunca”, reforça Dantas.
"Lei da Viagem" foi inspiração da Ilha de Lesbos, na Grécia, uma das principais entradas de refugiados para a União Europeia. Com a temática, Weiwei também criou o documentário Huiman Flow (2017), em que entrevista mais de 600 refugiados em 40 campos de 23 países. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
"Lei da Viagem" foi inspiração da Ilha de Lesbos, na Grécia, uma das principais entradas de refugiados para a União Europeia. Com a temática, Weiwei também criou o documentário Huiman Flow (2017), em que entrevista mais de 600 refugiados em 40 campos de 23 países. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
A mostra Ai Weiwei Raiz estreia no dia 3 de maio e segue em cartaz até o dia 28 de julho no Museu Oscar Niemeyer.

E a arquitetura?

Muito provavelmente você já tem a imagem de pelo menos uma de suas obras na cabeça. Weiwei é coautor do projeto do estádio ‘Ninho do Pássaro‘, em Pequim, que se tornou icônico nas Olimpíadas de 2008. O projeto é assinado pelo famoso escritório de arquitetura Herzog & de Meuron Ele se voltou à área depois de morar nos Estados Unidos durante anos, e com frequência é chamado a ser consultor de design de projetos. Mas a arquitetura é apenas uma das formas de expressão artística do chinês, que também trabalha com escultura, documentário e fotografia.
Foto: divulgação
Foto: divulgação
E a parceria com Jacques Herzog e Pierre de Meuron foi mais longe, em outros dois projetos. No documentário Ordos 100 Ai Weiwei reuniu 100 arquitetos de 27 países em 2008 para desenhar casas em terrenos de 1.000 m² dentro de uma nova comunidade no interior da Mongólia. As residências deveriam se ajustar a um master plan desenhado pelo chinês. O projeto ambicioso não chegou a ser concluído, embora algumas casas tenham começado a ser construídas.
O filme, lançado em 2012, mostra detalhes da reunião realizada no dia 25 de janeiro de 2008 com todos os profissionais em Ordos para uma primeira visita ao terreno. Veja o documentário completo abaixo:
Em 2017, a parceria do escritório de arquitetura com o artista deu origem à instalação Hansel & Gretel (João e Maria). A proposta imersiva localizada no Wade Thompson Perfurar Hall, em Nova Iorque, colocava os visitantes em um ambiente escuro, onde cada movimento era monitorado por sensores de movimento, capturas de imagens e uma equipe de drones de vigilância. O trabalho abordou o crescente papel da vigilância na sociedade e cidades contemporâneas.

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