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Paraguai e Suíça são os países mais felizes do mundo; saiba por que

Carnaval de Basel, no norte da Suíça: grupos artísticos percorrem o centro antigo da cidade. A maior lição do país é a ocupação democrática dos espaços públicos. Foto: Christof Sonderegger/Swiss-Image.ch/Divulgação | Switzerland Tourism
A felicidade parece ter endereço certo. Suécia? Finlândia? Butão, que começou com toda essa história de avaliar o índice de felicidade? Que nada. Pesquisa recente do Instituto Gallup aponta os países latino-americanos como os mais felizes do mundo.
Para surpresa geral, o Paraguai encabeça a lista dos 148 países consultados pela instituição, com 89% da população se considerando feliz. Mas as lições que podem ser extraídas desse resultado inesperado ficam mais nebulosas quando observado um outro estudo.
A ONU publica anualmente o Relatório Mundial da Felicidade, com grandes nomes à frente do levantamento, como o economista norte-americano Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Columbia e um dos maiores experts do mundo em desenvolvimento econômico.
Levando em consideração não só a percepção das pessoas, como também o PIB per capita e outros indicativos culturais e socioeconômicos, a Suíça surgiu no relatório como a nação mais feliz do mundo. Do total de 10, que representa a melhor vida possível, o país atingiu 7,58 na marcação. “Recebemos com surpresa essa notícia. A Suíça é um país que proporciona vida com conforto e segurança para todos, mas por sermos mais calmos e reservados, não esperávamos ser o país mais feliz”, confidencia o cônsul-geral da Suíça em São Paulo, Claudio Leoncavallo.

Agora, governos do mundo todo estão interessados nessa medição do bem-estar subjetivo, pois esses números auxiliam na definição de políticas públicas e na orientação do design de espaços públicos.
Mas os resultados também podem ajudar a nortear o desenvolvimento das nossas cidades. “Por mais que o relatório da ONU tenha por meta levantar insumos para o desenvolvimento de políticas públicas, ele não chega, nem poderia chegar, ao nível de ousadia de sugerir quais devem ser os pilares de uma política voltada à felicidade”, explica a economista Ana Carla Fonseca, consultora da ONU para políticas públicas e sócia-diretora da Garimpo de Soluções. “Uma mensagem potente do relatório é o reconhecimento de que a felicidade reside mais no processo do que no produto final. Ou seja, dar aos cidadãos a possibilidade de participar nos processos deliberativos aumenta sua percepção de felicidade.”

Caminho a seguir
O arquiteto Ciro Pirondi, da Escola da Cidade, considerada uma das faculdades de arquitetura mais promissoras e inovadoras da América Latina, é certeiro: “Quanto mais a dimensão pública da cidade estiver resolvida, maior será o grau de desenvolvimento e, consequentemente, o de felicidade”. Ele cita o exemplo da mobilidade urbana, que precisa ser feita de maneira humana e consistente, sem gerar desconforto e nos fazer perder cerca de cinco horas por dia dentro da condução.
“Veja a Suíça. Ela oferece condições tranquilas e seguras para qualquer um. Mas não uma segurança falsa, de pequeno burguês do tipo que diz: ninguém encosta na minha calçada. Tudo favorece o andar lá. Os espaços chamam e são ocupados”, ressalta Pirondi. “Quanto mais a cidade é murada, dividida, onde população não tem acesso a nada, maior o grau de insatisfação.”
Com o Paraguai, não é diferente, na opinião do arquiteto. “Em muitas áreas do país, você pode andar com tranquilidade. São diversos os espaços abertos, bonitos e com clima que favorece. Essa relação com a natureza também é importante. Se tem rios mais limpos, tem também horizontes mais abertos, que propiciam momentos de relaxamento.”
Pirondi destaca ainda o papel dos lugares simples, que favorecem o convívio, remontando aos primórdios da humanidade. “O homem não suportou a vida separado do campo. Construiu a cidade por sedução do outro. Por querer virar a esquina e encontrar alguém.”

Para o cônsul-geral do Paraguai em Curitiba, Ricardo Brugada, a explicação de país feliz está também no mito fundador da nação. “O povo paraguaio é um povo sacrificado, que passou por muitas guerras, lutou muito e se resignou. Apesar de tratar de superar os obstáculos, deixa de lado as adversidades para tentar viver feliz”, defende o diplomata, ressaltando que as carências do dia a dia fazem do paraguaio um povo mais generoso e fraterno.
O sociólogo da UFPR Nelson Rosário de Souza aponta que quanto mais sólidos os valores democráticos e a igualdade de direitos, maior será o nível de solidariedade, otimismo, ativismo, confiança no outro e em si. “E, portanto, da satisfação daquela sociedade, até que surjam novas aspirações”, conclui.


Três lições para uma vida feliz e saudável
A Universidade de Harvard conduziu ao longo de 75 anos o que talvez seja o mais longo estudo da história sobre desenvolvimento humano. Cientistas da Faculdade de Medicina acompanharam de perto a vida de 724 homens para tentar descobrir o que nos mantém mais felizes e saudáveis ao longo da vida. Entre os jovens escolhidos para a pesquisa, metade era composta por estudantes de Harvard e a outra parte era de jovens de um dos bairros mais pobres de Boston.
Existem três grandes lições que podemos aprender com o estudo, como sugere o psiquiatra norte-americano Robert Waldinger, que leciona na Universidade de Harvard e dirige o levantamento. “A primeira mensagem é clara: as boas relações sociais são o que nos mantém mais felizes e saudáveis ao longo da vida, e nada relacionado a riqueza, fama ou trabalhar cada vez mais”, sentencia o médico em apresentação pública da pesquisa.
Portanto, quanto mais ligado a amigos, familiares e comunidade, mais feliz você será. A segunda lição mostra que o fundamental não é a quantidade, mas a qualidade das relações íntimas. Com dados de quando os participantes tinham cerca de 50 anos, os pesquisadores encontraram que não foi o nível de colesterol ou a quantidade de dinheiro que determinou a felicidade aos 80 anos, mas o grau de satisfação com as relações.
Por último, Waldinger destaca que as boas relações também protegem o corpo e o cérebro. “Ter uma relação bem estabelecida é uma forma de proteção. Porque você sabe que pode contar com a outra pessoa em momentos de necessidade”, explica. “As pessoas discutem, sim, têm dias ruins, mas sentir que pode contar com o outro faz as vivências ruins não se fixarem na memória.”
Colocar isso em prática é mais difícil e varia de caso a caso. Mas o psiquiatra dá algumas dicas. “Substitua o tempo de tevê por mais tempo com as pessoas, anime a relação a dois fazendo algo novo juntos, como caminhadas, ou procure um parente com o qual você não fala há tempos”, aconselha.