Estilo & Cultura
Esses três homens ajudam a construir Curitiba nos pequenos detalhes

Valmir Gomes, o calceteiro; Joel Vendramin, o carpinteiro e Gregório Nedorub, o artesão de cúpulas. Três personagens anônimos que ajudam a construir Curitiba. Fotos: Fernando Zequinão e Letícia Akemi / Gazeta do Povo
Curitiba é reconhecida por suas obras de urbanismo, que tiveram destaque no cenário nacional e, em alguma medida, mundial. Mas para quem vive a cidade, caminha por ela no dia a dia, inúmeros detalhes da arquitetura saltam aos olhos. Dos lambrequins das casas de madeira às nossas famosas calçadas de petit pavé, é nos detalhes que a cidade nos ganha e confirma sua identidade.
Mas há pessoas por trás destes detalhes. E pessoas com histórias maravilhosas, ricas e inspiradoras. Para homenagear Curitiba nesta semana do aniversário de 324 anos da capital, destacamos três personagens que você pode não conhecer, mas já viu o trabalho deles por aí.
Joel Vendramin e a sobrevivência dos lambrequins
Há mais de 130 anos no mesmo endereço a Carpintaria São Judas Tadeu é um marco para quem passa pela Manoel Ribas, em Santa Felicidade. Todo o processo que dá origem a portas e janelas é artesanal permeado de muita serragem e barulho. São dessas máquinas também que saem peças símbolo da arquitetura tradicional de madeira: os lambrequins.

O responsável por cuidar da linha de produção é o orgulhoso Joel Vendramin, 71 anos. Ele garante: quem procura lambrequim no Google encontra a carpintaria logo na primeira página.

De acordo com ele a São Judas Tadeu é “uma das últimas, senão a última carpintaria que faz lambrequins no Paraná”. Ao preço de R$ 70 o metro linear os lambrequins permanecem vivos para repor fachadas degradadas e compor novos projetos. “As casas de madeira são cada vez mais raras e para mim é muito importante ajudar a preservar essa tradição”, afirma seu Joel .


Quer saber mais sobre a história dos lambrequins? Tem uma matéria para você aqui
Hryhorij Nedorub, ou o seu Gregório das cúpulas
O sorriso fácil, o jeito amável e as mãos talentosas são as características mais marcantes de Hryhorij Nedorub. Calma, o nome é de difícil pronúncia, mas para facilitar basta chamá-lo de Gregório, o equivalente brasileiro do nome ucraniano.

Aos 76 anos, esse ucraniano da região de Poltava é o último artesão de Curitiba e arredores a dominar a técnica de construir cúpulas, principal símbolo da arquitetura religiosa ucraniana.

Ele veio ao Brasil aos 10 anos só de sapatos e calça, acompanhando a família na fuga dos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Estudou funilaria e se interessou pelas cúpulas ao acaso, aprendeu sozinho a moldar as cúpulas depois de um pedido do bispo da igreja católica ucraniana. Em 1968, levantou as primeiras cúpulas, na igreja Santa Ana, no Pinheirinho.

Quem passa em frente a sua oficina no Capão Raso nem desconfia que ali habita o último de sua espécie, já que o funileiro aposentado gasta maior parte do tempo fabricando calhas. Na época de ouro, por volta de 1970, chegou a empregar 17 funileiros.

Hoje tem apenas um funcionário, o único herdeiro desse saber tradicional. Seu filho, também Gregório, um arquiteto de mão cheia e seu mais querido aprendiz, faleceu em um acidente.

“É questão de dom. E eu gosto do que faço. Tento sempre fazer tudo perfeitinho.” Gregório valoriza tanto a perfeição técnica das peças que às vezes esquece de ver poesia no que faz. Mas é, sem dúvida, um talento anônimo de Curitiba.
Conheça melhor a história das cúpulas de igrejas aqui
Você já pisou no trabalho do mestre Valmir Jorge Gomes
Os tradicionais mosaicos de petit-pavé estão enraizados na cultura de Curitiba. Experimente falar para um curitibano que eles são perigosos, que o melhor seria substituí-lo do calçadão da XV. Com certeza será motivo de discussão. Mas há um cidadão da cidade que pode ser eleito o maior defensor dos mosaicos portugueses. O calceteiro Valmir Jorge Gomes, de 60 anos, tem por ofício a colocação das peças com perfeição.

“Elas são um espelho da cidade”, reflete o conhecedor e defensor de uma colocação perfeita e delicada. Para tanto usa um martelo especial, com apenas 700 gramas. “É um petit-pavé sem brutalidade, com delicadeza”, diz afirmando serem necessárias apenas três batidinhas para a fixação, sob pena de estragar o mosaico.

O bom calceteiro, na opinião de Valmir, vê com as mãos. Só pelo tato ele sabe qual das seis faces da pedra encaixará melhor.
Tanta técnica rendeu reconhecimento, por aqui e lá fora. Um amigo da Itália convidou Valmir para fazer uma calçada de petit-pavé em Bordeaux, na França. Convite que ele não pode aceitar, pelas dificuldades que envolvem cruzar o oceano em uma viagem internacional. “Mas ainda quero ir.”

Outro sonho é ensinar o ofício a outras pessoas. Para isso, ele precisa do diploma da Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa, cidade que é um dos berços da arte. O pedido para fazer o curso e obter o título foi aceito, mas ele teria de viajar de uma semana para a outra, o que não foi possível. “Mas não desisti. Ainda vou dar um jeito de deixar meu legado”, garante.
A gente contou toda a história de Valmir Jorge Gomes, aqui.