Estilo & Cultura
Cais que recebeu mais de um milhão de escravos no RJ passará por obras de conservação

Foto: Divulgação Porto Maravilha | Gilvan de Souza
Mais recente local brasileiro listado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, será contemplado por um projeto de conservação por meio de uma parceria de diferentes instituições brasileiras e internacionais. Redescoberto em 2011 durante a operação urbana Porto Maravilha, o espaço é hoje um sítio arqueológico que conserva a história das cerca de um milhão de pessoas que foram trazidas como escravas do continente africano.
Construído em 1811, o cais foi usado como local de desembarque dos navios negreiros até 1831, quando o tráfico de escravos entre continentes foi proibido. Hoje, o espaço representa o único vestígio material do período da escravidão e é um importante recurso para a memória da história nacional. Graças aos 200 anos que se passaram desde sua construção e ao período em que estiveram sob outros pavimentos, no entanto, as ruínas apresentam desgaste nas pedras que compõem sua estrutura original.

A partir de um projeto da Prefeitura do Rio de Janeiro por meio da Secretaria Municipal de Cultura, orientado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e contratado pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP), o Cais do Valongo receberá do Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro US$ 500 mil (cerca de R$ 2 milhões) para aplicação em diferentes fases dedicadas à conservação do local, viabilizado via Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil.
A primeira, que começa em dezembro deste ano, contempla a restauração do pavimento original de pedras, drenagem das águas da chuva e reforço estrutural das paredes, fundações e superestrutura. Serão dois anos de trabalho e o objetivo é que, finalizada a intervenção, as ruínas atuem como uma espécie de museu a céu aberto.

O projeto foi anunciado nesta quarta-feira (21), durante os eventos da Semana da Consciência Negra, onde o cônsul-geral dos EUA no Rio de Janeiro, Scott Hamilton, o diretor-presidente do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), Ricardo Piquet, a secretária de Cultura, Nilcemar Nogueira, e a superintendente do IPHAN no Rio de Janeiro, Mônica da Costa, lançaram a pedra fundamental das obras.
“O sítio arqueológico é muito importante para que possamos refletir sobre um tema que precisa entrar em pauta, que é a reparação. Por tudo que representa o Cais do Valongo, por toda a historiografia não contada e por toda memória silenciada, o lugar precisa e deve ser mantido, reconhecido e conhecido por todos os brasileiros”, afirmou em nota a secretária municipal de cultura Nilcemar Nogueira.

A parceria com os Estados Unidos para a ação se justifica, segundo os órgãos envolvidos, no fato de que ambos os países compartilham o histórico de escravidão de pessoas vindas de diferentes países da África.
“A parceria com o governo dos EUA lança as bases para todas as ações de preservação material e imaterial que serão implementadas a partir de agora. De forma simbólica, também acena para a comunidade internacional sobre a necessidade de unir esforços a fim de impedir que se repita e se tolere, em qualquer parte do mundo, o bárbaro crime da escravidão e a tragédia do extermínio racial”, completou a secretária de Cultura.

*Especial para Haus.