A provocadora mostra individual dos Irmãos Campana em Nova Iorque
Eles levaram mais de 100 mil pessoas ao “olho” do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, para conhecer de perto peças como as poltronas “Vermelha” e “Favela”, que há décadas impressionam pela beleza e ousadia. Em plena produção criativa, os Irmãos Campana não param e assinam, desde o início de setembro, um novo trabalho, exposto na galeria Friedman Benda, em Nova Iorque.
Batizada de “Hibridismo”, a mostra traz peças marcadamente esculturais que as aproximam mais da arte do que do design, mas que continuam tendo o material – marca registrada da dupla – como protagonista. Outros estudos envolvendo colagens e pinturas em acrílico também estão no raio de atuação dos irmãos Fernando e Humberto Campana que, mais do que nunca, procuram dar vazão e destacar sua individualidade.

Foi assim na entrevista exclusiva que concederam à HAUS durante uma de suas últimas visitas a Curitiba, na qual receberam separadamente a reportagem. Confira.

com móveis pesados, de ferro, bronze e alumínio, que mescla diferentes seres. Foto: Reprodução
Contem-nos um pouco mais sobre a exposição “Hibridismo”?
Humberto: Estou muito animado porque é um trabalho novo, diferente. Esta exposição está muito mais ligada à arte do que ao design. Ela é um manifesto, uma reação a tudo o que está acontecendo no
Brasil, à confusão que está o mundo de hoje. É uma catarse para tentar não ficar desanimado. [São trabalhos] muito mais pessoais do que dirigidos ao público. São móveis bem esculturais, pesados, de ferro, bronze e alumínio, nos quais criamos um hibridismo entre diferentes seres.
Fernando: O legal nesta exposição é que nós dividimos as tarefas. Eu vou trabalhar na escala do objeto, com coisas para se ter em cima da mesa, e o Humberto na do mobiliário.

A linguagem de vocês tem uma ligação muito forte com a essência do material. Podem falar a respeito disso?
Fernando: Nós nascemos em Brotas, [interior de São Paulo], em uma cidade pequena, porém cheia de natureza. O cinema da cidade foi nossa janela para o mundo, e quando saíamos dele tentávamos reproduzir o que víamos na tela. Quando eu assisti a “2001” [de Stanley Kubrick], não existiam aquelas espaçonaves nas lojas e fui buscar estacas de bambu para construí-las. Você não tem o material perfeito, mas tem a proximidade por meio de uma estética ou uma ciência de mimetização. Essa curiosidade, é isso o que nos leva a modificar [os materiais e seus usos], a não sermos conformistas.
Humberto: É sempre o material quem vai pedir no que ele quer ser transformado, como um personagem à procura de um autor. Às vezes eu compro um couro ou pedras semipreciosas e os deixo lá no estúdio. Então começa um namoro, um flerte. É sempre assim, é o material quem nos conduz ao processo final.
Vocês disseram uma vez que a “imperfeição do material é libertária”. O que isso significa?
Humberto: Acho que é um pouco o nosso processo, pois tudo começou imperfeito. Eu era advogado, o Fernando [arquiteto] veio me ajudar. É como as coisas vão acontecendo, não perfeitas.

Quando vocês começaram, com a exposição “Desconfortáveis”, o trabalho que desenvolviam era considerado subversivo. Vocês também se intitulavam desta forma?
Humberto: Não, nós nunca nos intitulamos. É engraçado que, nos anos 1980, o mundo não estava nesta velocidade de hoje. Então, talvez estivessem ocorrendo várias manifestações no mundo e isso não vinha à tona. E, hoje, seria muito pretensioso dizermos que somos subversivos, devido à velocidade da informação.

O design brasileiro começou a despontar na geração de vocês. Como avaliam a evolução do trabalho ao longo dessas décadas? Vocês ainda mantêm alguma ligação com aquela essência do passado?
Humberto: [Muitos nomes] fizeram o design brasileiro, como Sérgio Rodrigues, que trabalhava com a madeira. Esse design era maravilhoso, mas seguimos um caminho pelos materiais, com móveis duros, até desconfortáveis, e até hoje este é nosso processo.
Fernando: A linha mestra é a manualidade e extrair poesia do que não é perfeito.

Como definiriam o Brasil que apresentam nas obras assinadas pelos Irmãos Campana?
Fernando: É o da inserção social, da recuperação de tradições em vias de extinção, o da possibilidade de valorizar e profissionalizar pessoas que, às vezes, estão no abandono. [Foi assim com a exposição] “Retratos Iluminados”, um projeto no qual pedimos para que as bordadeiras de Alagoas, Sergipe e da Bahia fizessem seus autorretratos em bastidores que viraram lustres. [É mostrar] o Brasil através da manualidade, da responsabilidade social. Não adianta [apenas] fechar vidro e blindar [o carro].
Humberto: Procuramos mostrar um Brasil contemporâneo, sério, criativo, que com pouco pode transformar a coisa bruta no falso brilhante. O Brasil do Carnaval, do kitsch. O Brasil que é a fusão de raças, de pessoas criativas, um país barulhento. Aqui a gente não tem neve, que deixa tudo branquinho, minimalista. O Brasil tem textura, barulho, musicalidade, cor e luz. E é esse Brasil que procuramos passar, com responsabilidade, elegância e seriedade.