Design
Designer israelense desponta no cenário internacional valorizando a imperfeição dos materiais

O designer israelense Alon Dodo. Foto: Divulgação | Joey Cohen
Autodidata. Designer. Carpinteiro. O israelense Alon Dodo é tudo isso e mais um pouco. O diploma de Ciências Políticas está na gaveta de um dos tantos móveis que ele vem fabricando com a ajuda de um time de artesãos. “A minha marca nasceu há 12 anos. Mas eu já nasci carpinteiro e virei designer”, brinca ele, que na infância chegou a construir brinquedos e até pranchas de surf. “Fui fascinado por design e arquitetura desde muito pequeno. Tinha muita curiosidade em aprender como os artistas faziam para combinar formas, materiais e cores e transformar tudo isso em objetos”, conta.
E o que era curiosidade e admiração em relação ao trabalho de profissionais como Sérgio Rodrigues e os Irmãos Campana virou profissão. Um banco de carvalho todo perfurado à mão marcou o debuto do carpinteiro no mundo do design. “Foi a primeira peça da minha primeira coleção”, lembra ele. Hoje, aos 43 anos, Alon Dodo ganhou reconhecimento internacional e do seu escritório-laboratório, localizado no distrito industrial de Emek Hefer, a 50 minutos do centro de Tel-Aviv, produz 120 peças anualmente. São mesas, cadeiras, aparadores, escrivaninhas, camas e acessórios, como espelhos. Tudo rigorosamente feito à mão.

O trabalho manual e a integridade da matéria-prima conferem caráter e alma às suas criações, nas quais emprega técnicas artesanais tradicionais. “A perfeição da imperfeição é minha filosofia. Abraço os defeitos dos materiais que, no fundo, contam uma história”, explica o artesão, que adotou um processo criativo muito simples: o de desenhar tudo no papel, indo contra grande parte de seus colegas, que usam programas de computadores ou protótipos. “Muitas vezes, eu tenho uma ideia à noite e no dia seguinte construo o móvel. Chego a passar onze horas fechado no meu galpão”, conta Dodo.
As fontes de inspiração, por sua vez, são variadas. Tudo ao seu redor pode acabar influenciando a criação de um novo objeto. Não há uma regra fixa. Na sua última coleção, Flying Carpet, as superfícies das peças, em especial das mesas e cadeiras, fazem alusão às ondas do mar. Confeccionados em carvalho em tons claros e escuros, os móveis apresentam um reconhecível detalhe decorativo, marca registrada do israelenses: tiras de metal (latão) que se transformam em um espécie de curativo, servindo para reparar fissuras naturais da madeira, impedindo que possa se expandir.

“Gosto de fabricar peças que choquem à primeira vista. Sei que depois de observá-las e tocá-las, a sensação é de completa surpresa”, revela o artesão israelense que chega a levar até três semanas para produzir um único móvel, com preço médio entre US$ 3 mil e US$ 8 mil. “Acredito que meu design seja simples e sofisticado ao mesmo tempo”, avalia.
Madeira, mármore, concreto, cobre e couro
A combinação de materiais é significativa nas obras do israelense tanto quanto o senso lúdico. “Uso de tudo. Madeira, mármore, cimento, vidro, latão, bronze e até couro. E, em algumas peças, gosto de brincar com as formas”, diz ele que, há três anos, usou técnicas de artesanato local para dar vida a um aparador batizado de Concrete Credenza. A peça é impactante: a base e as pernas em madeira (carvalho), as portas de concreto e os puxadores em aço pintado.

Outra criação de grande apelo é a escrivaninha Desk 53. Sofisticado, o móvel é um jogo de esconde-esconde artesanal. Toda em madeira, ela possui compartimentos embutidos na própria base para guardar todo o tipo de material de escritório. “Usei o couro para revestir as gavetas e também em uma parte do tampo. Usei ripas para criar um ziguezague entre os pés”, descreve o designer. “Também gosto de adicionar detalhes como, por exemplo, deixar cair tinta propositalmente na superfície. Um recurso ornamental que usei na coleção Stain [Mancha]. Ou também a pirografia, a arte de queimar a madeira, com a qual decorei com estampas e grafismos as peças da linha Scars [Cicatrizes]”, completa.
Único e original, o trabalho de Alan Dodo vem despertando grande interesse em todo o mundo, tanto que a produção tende a aumentar em 2020. “Além dos modelos padrões, tenho feito móveis sob medida e até customização de acordo com as exigências do cliente”, diz ele, que comercializa suas peças por meio do Pamono, uma plataforma online especializada em objetos de design exclusivos.

Para o futuro, os projetos envolvem continuar desenho e criando obras artesanais. “E, é claro, dormir um pouco mais”, comenta em tom de brincadeira o israelense.
*Especial para Haus, direto de Milão, na Itália.