Decoração

Peças feitas para sentir

Daliane Nogueira
22/08/2013 03:14
Thumbnail
r paulista Sergio Fahrer aprendeu a “sentir” os objetos. De lá também veio a técnica usada para o seu mobiliário – a multilaminação, na qual é referência no mundo todo. Sergio agora passou a assinar peças em parceria com o irmão mais novo, Jack. Ambos estão relançando, no Brasil, móveis desenhados para o mercado internacional, além de peças com materiais inovadores, vendidos em Curitiba na Momentum&Design. Nesta entrevista, Sergio fala do trabalho a quatro mãos, do uso responsável da madeira e da função do design de móveis.
Como está sendo a parceria entre você e seu irmão Jack?
Sempre tivemos muita afinidade artística e desenhamos há anos. Eu na parte de design e o Jack no HQ e na moda. Quando o convidei para fazer parte da empresa, imaginava que nos complementaríamos, o que de fato ocorreu. Nos provocamos artisticamente, o que enriquece o processo criativo. Nossa ideia é criar um mobiliário sem seguir tendências e a inspiração são os elementos do cotidiano e o que as pessoas fazem com seus objetos e espaços.
O seu início de carreira foi inusitado, como lutier (profissional que constrói à mão instrumentos musicais). Foi isso que lhe deu o domínio de técnicas diferentes?
Iniciei minha carreira de designer por acaso. Estudei música em Los Angeles, no MIT, e fui convidado a trabalhar dentro da faculdade como lutier. Me apaixonei pela arte da luteria e pela madeira como matéria-prima. Desde então, aplico a técnica de construção dos instrumentos – a multilaminação – nas peças de design que concebo. Essa é a marca que me permite reconhecer-me no trabalho, o que considero a premissa para ser feliz profissionalmente.
Quais as alternativas para usar a madeira de forma sustentável?
Sou um dos primeiros designers a divulgar e fomentar o uso de materiais recicláveis e ecologicamente corretos, definidos pelo FSC (Conselho de Manejo Florestal, na sigla em inglês) e outros órgãos que trabalham com manejo florestal. A receita está pronta, precisamos que as empresas adotem esses critérios e que os consumidores exijam produtos sustentáveis. Além disso, primamos pela durabilidade dos produtos. Queremos que nossas peças acompanhem a vida das pessoas e não obedeçam apenas a uma moda passageira.
Os móveis de design ainda são muito caros. Qual a forma de torná-los mais acessíveis para boa parte das pessoas?
Para cada tipo de cliente, temos um mercado. Temos peças feitas à mão, o que as torna únicas e caras. No caso do design mais acessível, precisamos que fabricantes de produtos em alta escala contratem designers para desenvolver suas coleções. Só o design autoral aliado a um fabricante grande pode mudar esse cenário.
Como você lida com as cópias?
Registro todos os processos e desenhos, pois infelizmente as fábricas sem departamento de criação vão pelo caminho mais prático, que é a cópia. Tenho a obrigação de proteger o cliente que compra uma peça autoral das cópias banalizadas. Para isso, uso a tecnologia de ponta consigo e procuro desenvolver produtos mais arrojados, sejwa no conceito, no design ou na matéria-prima. Outro ponto é o fato de participarmos de todo o processo de fabricação e fazermos questão da impressão de números de série em cada peça.
A nova coleção é marcada pela reedição de móveis criados para o mercado externo. Porque trazê-las agora para o Brasil?
Muitos clientes, quando viajavam para Paris, Londres e Nova York, encontravam nossas peças em lojas ou galerias e queriam tê-las no Brasil. Decidimos então trazer algumas destas peças para o mercado nacional, como a cadeira Toá, por exemplo.
Vocês são ligados a outras artes, como música, HQ e moda. De que forma essas outras experiências se manifestam no trabalho de vocês?
Nossas experiências de vida naturalmente contribuem para que o design tenha uma personalidade marcante e autoral. Seja nas curvas dos instrumentos musicais, da moda ou no traço à mão livre que sempre nos acompanham e ficam evidentes nas nossas peças.
Em que outros materiais vocês apostam na nova linha?
Alumínio naval e aeronáutico, bambu, entre outras surpresas a serem lançadas em novembro, no evento Design OK, que reúne designers autorais em São Paulo.
O Brasil tem em sua história, grandes nomes do design. Você acredita que o brasileiro valoriza o design ou ainda há uma distância entre o que se cria e o que chega às casas?
O brasileiro valoriza o design, porém existe, sim, uma distância entre consumidores e produtos de design, que está diminuindo. Temos certeza que o design faz a diferença na escolha do cliente que tem mais acesso à informação. Há clientes que fazem questão de comprar peças de design assinado e isso nos deixa muito satisfeitos.