Decoração

Lições da natureza

Daliane Nogueira
23/05/2013 03:08
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Os móveis cheios de poesia e criatividade passarão a ser vendidos em Curitiba na Galeria Inove e durante o lançamento da coleção, Alves conversou com a Viver Bem Casa & Decoração. Ele fala sobre como a observação da natureza pode render uma aula de design e sobre a influência que a convivência com a arquiteta italiana Lina Bo Bardi (projetista do Museu de Arte de São Paulo -MASP) exerceu em sua forma de observar a cultura brasileira.
Como começou sua relação com o design de móveis e especialmente com o uso da madeira?
Eu nasci no interior de São Paulo, em Jardinópolis e estudei em uma escola mantida pelo Sesi (Serviço Social da Indústria), que tem por tradição o ensino de técnicas industriais. No meu caso, havia aulas de marcenaria. Era um espaço muito bacana, com um marceneiro atencioso e eu fui me encantando por desenhar e fazer pequenos móveis. A atividade lúdica despertou em mim um gosto especial pela madeira.
De que forma o trabalho com a arquiteta italiana Lina Bo Bardi influenciou sua carreira?
Eu estudei arquitetura na USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos e, logo que me formei, fui para São Paulo e tive a sorte de conseguir trabalhar com a Lina em suas últimas obras. Depois da sua morte (em 1992) segui trabalhando no instituto fundado por ela e pelo marido (Pietro Maria Bardi) na Casa de Vidro, onde eles moravam, em São Paulo. Trabalhar na organização do foi muito importante para a minha formação, porque ela estudou a cultura, arquitetura e design brasileiros. Acho que a principal contribuição da Lina foi mostrar como juntar a formação de vanguarda europeia com a cultura popular brasileira.
E essa escola você carrega até hoje?
Com certeza. E o mais interessante é que ao estudar o acervo da Lina percebi que ela havia feito muita coisa de mobiliário. Ela chegou a ter uma marcenaria e desenhava os móveis para os projetos de arquitetura. Essa foi mais uma influência no meu trabalho com móveis.
Como você passou a usar madeira de reflorestamento e outras matérias primas sustentáveis?
Logo que eu comecei a trabalhar com marcenaria minha preocupação era não agredir o meio ambiente, embora naquele tempo não houvesse tanta oferta de madeira certificada. Assim comecei a fazer pequenos objetos com restos de madeira. Essa técnica foi evoluindo e percebi que era possível colar vários pedaços de madeira, mostrando a variedade de espécies e a riqueza da floresta brasileira. A diversidade é muito a cara do Brasil.
Um trabalho como o seu é mais associado ao fazer artesanal, como foi o processo de transferir a produção para a indústria?
Nosso trabalho é super artesanal. Na marcenaria temos as máquinas mais tradicionais de marcenaria. As mesmas máquinas que eu usava quando criança na escola do Sesi. E o mais interessante é a possibilidade de cada peça ser particular. Mas tenho peças, como o banco Charlote, que é produzido por uma grande indústria (Butzke – SC) e tem uma produção em escala maior e preços mais acessíveis.
Como é o mercado para este tipo de trabalho?
Quando se fala em móveis de design no Brasil ainda é, infelizmente, destinado às pessoas com maior poder aquisitivo. Porém não para a classe AAA que, em geral, não gostam muito de design arrojado que é uma marca do design brasileiro. Agora tem um público que tem mais dinheiro e é consumidor de design e formador de opinião. Assim a gente vai trilhando um caminho e disseminando mais o design.

Além da madeira, que material você gosta de trabalhar em seus produtos?
Eu misturo muito pouco material. Raramente uso fórmica ou vidro, mas gosto mesmo da madeira. Agora estou lançando algumas peças com palha de dendê e outros tipos de palha, que é um trabalho em conjunto com uma comunidade do interior do Sergipe. É uma outra forma de ser socialmente responsável e levar uma melhor condição de vida para essa comunidade.
Qual tipo de madeira você mais usa?
Eu procuro a diversidade. Aqui no Paraná, por exemplo, tem muito reflorestamento de Pinus. É uma madeira fantástica, que fica escondida na maioria dos móveis. Acredito que toda a madeira é nobre. Uso ainda madeira certificada pelo FSC (Conselho Brasileiro de Manejo Florestal) e madeira de demolição. O manejo florestal é uma forma de explorar a floresta sem mata-la.
Você fala da natureza com muito carinho. Ela te inspira?

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