O estúdio de um artista é uma extensão de sua própria obra. O que um dia se tornará público em galerias e museus está por ali em estado bruto, obedecendo uma lógica muito particular.
Como arte e vida se misturam para o pintor curitibano Carlos Zimmermann, 62 anos, seu ateliê é sua própria casa. Erguida há 27 anos, com projeto dos arquitetos Armando Merege e Sergio Costa Pinto, a residência tem uma grande sala como ambiente central. O espaço de linhas modernas abriga um canto de produção, com telas e tintas, e divide espaço com sofás, uma mesa de jantar e um bambu japonês. “Aqui é a minha caverna”, descreve o artista, que passa cerca de seis horas por dia na frente de suas futuras obras.
Com um pé direito alto, a construção exibe um retrospecto das principais fases de sua carreira. Das experimentações com linhas retas às perspectivas surrealistas. Uma das paredes tem uma intervenção inspirada em uma viagem que fez à Grécia. Escritas em grego, as palavras “lar”, “esperança” e “alma” representam sua relação com o trabalho.
O home office de Zimmermann também traz muito de sua própria memória. No chão, os tacos de madeira arranhados são do mesmo tempo que as cortinas de metal instaladas quando se mudou para lá. Pelas laterais da sala, a tinta descasca revelando a passagem dos anos. Um aparelho de som, com vários títulos de jazz empilhados, divide espaço com telas reservadas para as próximas exposições. “Isso tudo é a minha história”, ressalta.
Intervenção
O pintor André Mendes, 34 anos, deixou de ocupar sua casa como ateliê e passou a buscar espaços maiores. Antes, suas telas tomavam corredores e cômodos de seu apartamento a ponto de se tornarem um estorvo.
Hoje, seu ateliê de trabalho é provisório e fica dentro de um centro comercial. O local servirá como galeria nos próximos meses, quando receberá o público para mostrar como funciona um estúdio. “Isso deve quebrar a distância entre o artista e a sociedade”, explica.
Ele também não se distancia de sua história no espaço. Instrumentos de quando era criança são guardados carinhosamente ao lado de tintas, organizadas a sua maneira. Grandes tapumes servem de mesas, para facilitar o alcance de suas matérias-primas. Uma bicicleta customizada pelo próprio pintor aponta para seu engajamento com a militância dos ciclistas.
Mendes diz que essa estrutura de estúdio, por vezes improvisada, é apenas um reflexo de sua própria produção. “Não defino minhas pinturas, apenas tento dar movimento a elas. Meu ateliê tem um pouco disso”, ressalta. Como gosta de trabalhar em várias obras ao mesmo tempo, o artista atravessa constantemente o espaço, para pincelar diferentes telas.
Oficina
Como compara seu esforço de criação a uma engenharia de produção, a artista plástica Eliane Prolik, 54 anos, descreve seu ateliê como um ambiente prático. O local, ocupado por ela em 1996, havia sido um depósito de bebidas. Com projeto do arquiteto Marcos Bertoldi, o galpão virou uma engrenagem fundamental no trabalho da profissional.
O chão tem ladrilhos vermelhos da década de 1940. As paredes brancas e a iluminação natural dão a cara ao seu centro de operações. Além de evitar que as sombras consumam a arte, o espaço fica limpo, silencioso. Pronto para ver nascer a próxima obra assinada por sua ocupante.
Para a artista, a maior vantagem do estúdio é a maleabilidade. “Altero toda a estrutura quando preciso lidar com uma escultura grande. Faço uma bagunça”, confessa ela. Como registro de sua trajetória, o local também tem rastros de exposições antigas, como Defórmica e Pra Que, ambas de 2009.
