Opinião: “Com o pó em suspensão na atmosfera perdemos totalmente nosso referencial cósmico”
“Quia pulvis es et in pulveris reverteris” (Genesis 3,19)
Não tratamos aqui do famoso rio do Norte da Itália, tão presente na vida e na literatura dos nascidos na região. Mas daquelas partículas insidiosas que entram pelas frestas das portas e das janelas e infelicitam nossa vida. Referência confiável – e de evidente credibilidade – diz que em porcentagem altíssima, são de borracha. É preciso pensar muito para saber de onde vêm?! Parece-me que seria preferível acumular nos móveis da casa e nos pulmões, aquela poeira das antigas ruas e estradas, das quais as donas de casa reclamavam:
– Quando chove é lama, quando o tempo está seco, é poeira!
Muitas doenças que são atribuídas a fatores diversos, nas nossas empoeiradas cidades, certamente vem por essa via. Vêm montadas no suporte – mais que voador, impossível de ser bloqueado. Não é por obra do acaso que o surgimento de um eletrodoméstico, o aspirador de pó, corresponde ao explosivo crescimento da indústria automobilística.
Por conta do pó em suspensão na atmosfera, perdemos quase totalmente nosso referencial cósmico: nosso céu, quase não tem mais estrelas, a não ser nos sertões, estes em vias de desaparição também…
Aquele céu de paisagem africana – vermelhaço, com o perfil do Kilimanjaro ao fundo, elefantes e girafas passando em primeiro plano – cor evidente que proporcionada pela suspensão de pó em atmosfera muito seca, constatei ser viável em regiões onde o deserto é ainda uma ameaça ambiental.
Foi no início da década de sessenta: chegando ao majestoso Planalto Central Brasileiro, para visitar a recentemente inaugurada Novacap, orgulho maior, entre tantos outros, de todos os bons brasileiros. Ali estava o famoso “céu africano”, só conhecido através dos filmes de aventuras hollywoodianos. Tempos em que a África era o Continente das Aventuras, não da acachapante miséria…
Mas o céu brasiliense era aquilo: vermelho-incêndio no horizonte, esbatendo para tons de laranja, amarelo ouro e azul progressivamente mais escuros, até o negro da noite – estrelada e próxima. Contra esse fundo, já por si extasiante, os volumes brancos impolutos das esculturas arquitetônicas de Niemeyer. Nas áreas ainda não construídas, a silhueta de algumas árvores de cerrado, só tronco e galhos.
Infelizmente, essa paisagem não está mais disponível para as atuais gerações: Brasília tornou-se uma cidade como outra qualquer, ressalvadas algumas áreas de paisagem urbana preservadas. Mas aquele visual, foi suficiente para motivar um adolescente a prestar o vestibular de Arquitetura…