Vizinho é sorte
Anatomia é destino, mas vizinhança é sorte. Conforme venha a ser o seu vizinho, aquele apartamento dos sonhos torna-se um pesadelo. Das muitas queixas que ocorrem na compra ou mudança para um imóvel novo, uma não pequena parte refere-se a problemas de convivência. Não basta achar o imóvel certo, mas também o vizinho.
É claro que sempre a sorte o pode favorecer. Há incontáveis histórias de encontros felizes, de vizinhos que, por assim dizer, tornam-se da família e mais um pouco até – casamentos, amizades para toda uma vida. Nesse caso, o apartamento pode até nem ser grande coisa, mas como a vizinhança compensa! Do mesmo modo, quantas histórias patéticas de convivência ruim, forçando muitas vezes a mudança do local escolhido. Atribui-se a Tolstoi a frase segundo a qual se cantássemos uma aldeia, cantaríamos o mundo. Hoje a aldeia é o condomínio, esse pequeno cosmo particular.
Nesse tópico de vizinhos a única certeza que podemos ter é que nunca saberemos com quem vamos dividir um novo imóvel, seja na unidade ao lado, em cima ou embaixo (não basta ser um por andar, ok?) e mesmo no próprio condomínio como um todo. Por isso, administrar os conflitos em uma habitação coletiva e conseguir fazer valer um regramento de convívio comum não é tarefa de menor importância, muitas vezes recaindo sobre o papel do síndico, este herói vocacionado, nunca cantado devidamente.
É
claro que esse problema pode ser menor quando o condomínio já existe, e é
habitado há tempos. Nesse caso já há certa acomodação entre os moradores, que
se conhecem e mesmo se frequentam. Mas nem sempre é fácil avaliar previamente
essa questão em uma mudança de endereço.
Os
novos empreendimentos construídos, além de estarem adequados às normas técnicas
mais rigorosas, procuram de algum jeito melhorar a experiência do morador. Sobretudo
na questão do conforto acústico, onde há muitas queixas: algumas referentes ao
projeto de construção em si, outras ao melhor isolamento entre vizinhos.

São frequentes as reclamações, por exemplo, sobre o barulho de passos no andar de cima; ruídos de descargas e esgotos; ruídos de maquinário de elevadores, de aparelhos domésticos de vizinhos, para não falar, é claro, de comportamento sonoro dissonante fora do horário regular de tolerância. Aqui começam os problemas mais difíceis de fato.
Tem o cachorrinho da vizinha do 410, que sofre muito com sua ausência. O anedótico baterista do 301 que está formando uma banda com a estudante de piano do 207. As discussões acaloradas que ocorrem no 903 toda noite, por todos os motivos, felizes e tristes. Alguns pratos quebrados. Estrondo estranhos na madrugada. Som alto da festa inoportuna. E aqueles ruídos conspícuos do 801, que deixam ruborizadas as senhoras do 802, e vira assunto na manhã seguinte. Grupos de whats app do condomínio são a versão rediviva da fofoca da aldeia.
Nem
tudo, entretanto, é ruído. Há também as outras questões de caráter mais
comportamental, como por exemplo, a bendita tarefa de descartar adequadamente o
lixo, não sujar os tapetes da entrada com pés sujos de terra, deixar o banheiro
do salão de festas mais ou menos utilizável, não bagunçar toda a academia e por
aí vai. Será por isso que muito frequentemente o homo apartamentus não
cumprimenta seus vizinhos?
O
lindo apartamento adquirido, aquele imóvel mais que desejado, precisa também
ter a boa sorte de proporcionar uma experiência salutar de vizinhança. Viver,
mas viver bem, é sempre viver em conjunto, em uma coletividade.
E isso ocorre muito também, afirmemos: aqueles vizinhos que parecem como se fossem velhos amigos de sua família. Amigos como amigos de infância. São eles que ajudarão a tornar o seu apartamento o melhor lugar aqui e agora - como também já cantou outro poeta.
Marcos Kahtalian, é sócio-fundador da Brain Inteligência Estratégica