Arquitetura

Único prédio que restou da sede da Matte Leão em Curitiba será restaurado até o fim de 2019

Vivian Faria*
27/05/2019 10:57
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Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo | Gazeta do Povo

O período de abandono da antiga sede administrativa da companhia de erva mate Leão Júnior, Unidade de Interesse de Preservação (UIP) que fica na esquina da Rua Piquiri com a Avenida Getúlio Vargas, chegou ao fim: a revitalização do prédio já foi iniciada e deve ficar pronta até dezembro deste ano. A partir disso, o local passará a abrigar escritórios e salas de reunião da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), proprietária do terreno em que a edificação está situada e responsável pela execução da obra.
Detalhes do projeto de restauro, de autoria da arquiteta e coordenadora de projetos da IURD, Caroline Teles Gomes Peres, não foram repassados pela instituição. Contudo, de acordo com a assessoria de imprensa da Igreja Universal, ele tem por objetivo “revitalizar o prédio e adequar os ambientes internos para uso, preservando a concepção original da edificação quanto à volumetria, cobertura, fachadas, vãos e esquadrias e detalhes arquitetônicos”. A assessoria informou ainda que 20% da obra já foi concluída.
Sede administrativa da companhia de erva- mate Leão Junior, no Rebouças. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Sede administrativa da companhia de erva- mate Leão Junior, no Rebouças. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Conforme o Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba (Ippuc), responsável pela aprovação do projeto de restauro, além da revitalização do prédio que abrigava a sede da Leão Júnior, serão restaurados e preservados os barracões da empresa na Rua Piquiri para que a ambiência da rua também seja mantida. O Ippuc informou ainda que autorizou o uso do restante do lote como estacionamento.

Acordo

A revitalização e preservação da sede administrativa e dos barracões da Leão Júnior, mais tarde chamada Matte Leão, foi garantida por meio de acordo entre a prefeitura de Curitiba e a IURD, que instalou na região o chamado Templo Maior. O templo foi construído no terreno que antes abrigava a fábrica da Matte Leão, cuja demolição foi considerada por urbanistas e pesquisadores como descaso com patrimônio industrial da cidade.
O trato, porém, nada teve a ver com as obras mitigadoras e compensatórias pela construção do templo. Em dezembro de 2017, quando a proposta de revitalização foi tornada pública, o Ippuc explicou à Gazeta do Povo que, por se tratar de UIP, a edificação é protegida e o uso do lote pelos proprietários estava condicionado ao restauro e à manutenção do prédio. Para preservar parte da paisagem urbana da região, a revitalização dos barracões anexos ao prédio também foi incluída no acordo, apesar de eles não terem o status de UIPs.
De acordo com o arquiteto e urbanista Felipe Guerra, as ações para manter o edifício são de extrema importância para ajudar a preservar a história da cidade e do ciclo econômico ao qual o bairro está ligado. “O prédio é uma peça sobrevivente de um conjunto de estilo industrial, é quase um testemunho do que aconteceu. E daí tem a questão econômica, do quanto o mate foi importante para o estado e para Curitiba. Aquela área representava isso”, afirma.
Obras de revitalização já começaram e devem ser finalizadas ainda em 2019. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Obras de revitalização já começaram e devem ser finalizadas ainda em 2019. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
Ainda assim, Guerra lamenta que o prédio esteja “sozinho” e parte da paisagem urbana da região não tenha sido preservada. “Sendo o único prédio da Matte Leão que sobrou, ele acaba perdendo um pouco de importância dentro da paisagem urbana. Manter o conjunto todo era fundamental para a identidade da cidade e a leitura da paisagem do bairro, que era um bairro industrial”, explica.

A Leão Júnior

Precursora da Matte Leão, a Leão Júnior foi fundada por Agostinho Ermelino de Leão Júnior em 1901, pegando carona no ciclo do mate, base da economia paranaense até o fim da década de 1920, quando houve a queda da bolsa de Nova York. Durante boa parte deste primeiro período da empresa, ela foi comandada por Maria Clara de Abreu Leão, esposa de Agostinho Ermelino, que assumiu a Leão Júnior em fevereiro de 1908, após a morte de seu marido.
Mesmo enfrentando adversidades, como três incêndios diferentes em sua fábrica, a Leão Júnior chegou à liderança do setor, exportando mais de 5 mil toneladas por ano para países como Argentina, Chile e Uruguai.
Inicialmente, apenas o mate verde era vendido. Nos anos 1940, quando surgiu o mate tostado, a marca Matte Leão foi adotada. O período de ouro do mate havia passado, mas a dificuldade para conseguir chá do exterior durante a guerra fez com que a empresa curitibana ampliasse sua presença no Brasil. Nas décadas seguintes, outros produtos foram lançados, como Matte Leão solúvel e chá em saquinhos, adaptando a marca às mudanças nos hábitos de consumo. Na década de 1990, vieram os chás em lata, garrafa pet e copo selado.
Em 2007, a Leão Junior passou a integrar o Sistema Coca-Cola Brasil e, em 2012, passou a se chamar Leão Alimentos e Bebidas.
*Especial para a Gazeta do Povo 

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