Arquitetura
Exemplar raro de casarão dos anos 1930 está abandonado no Rebouças

Villa Campo Largo chama a atenção nos arredores da Praça Ouvidor Pardinho. Foto: Hugo Harada/Arquivo/Gazeta do Povo
Na esquina da Avenida Iguaçu com a Rua Nunes Machado, junto à Praça Ouvidor Pardinho, a casa amarela com detalhes em branco se sobressai na paisagem. Chamada de Villa Campo Largo, foi construída na década de 1930 pelo casal Lucas e Martha Sovierzoski. Depois de servir como moradia da família, sabe-se que foi uma galeria de arte e também clínica médica, mas os poucos registros não permitem conhecer toda a história da antiga casa. Há quem diga que também foi um bordel e um restaurante.

A edificação eclética, inspirada nos palácios do norte da Europa, se tornou uma Unidade de Interesse de Preservação (UIP), em 1986. O documento do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) ressalta a varanda no eixo da composição, coberta por telhado em pavilhão e também sua presença de destaque devido a “volumetria e posição em centro de terreno, de esquina”.

Marcelo Sutil, diretor de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), comenta que esse tipo de construção era comum na cidade durante as primeiras décadas do século 20. Alguns imóveis desse período ainda são encontrados em bairros como Batel e Alto da Glória, mas muitos foram descaracterizados em relação à arquitetura original. São exemplos a Vila Odete, na Rua João Gualberto (ao lado do Palacete dos Leões); onde hoje fica o Hospital de Olhos do Paraná, na Rua Visconde de Nácar, 810 (esquina com Alameda Augusto Stellfeld), e onde fica o escritório de advocacia Instituto Declatra, na Rua Comendador Araújo, 692 (próximo a esquina com a Rua Buenos Aires).
“Esse tipo de construção está ficando cada vez mais raro na cidade. É importante que exemplares remanescentes sejam preservados para que as gerações futuras saibam como era Curitiba em determinado período. Não podemos congelar a cidade em um tempo histórico, mas é importante ter critérios definidos para manter essas várias temporalidades habitando o mesmo espaço”, defende Sutil.
Primeiros donos
Filhos de poloneses, o casal Lucas e Marta Sovierzoski construiu a casa em 1931. Foi nela onde cresceram suas três filhas — Amália, Rosa e Helena. Lucas tinha uma madeireira e o nome do local remete à sua cidade natal.

“Villa Campo Largo”, escrito em uma placa decorativa no alto da fachada, indica um estilo de morar. As “villas” eram residências espaçosas, em meio a grandes lotes, cercadas por jardins, características da época que a cidade expandia para espaços considerados mais distantes da então área central.
Os registros da FCC mostram que, depois da morte de Lucas e Marta, o imóvel pertenceu a familiares dos ramos Sovierzoski e Guiraud. O lugar foi residência familiar desde sua construção até o início dos anos 1970, depois passou a ser alugado, até ser vendido.
“Tinha uma sala com uma pintura detalhada feita a mão que imitava um papel de parede”, lembra o bisneto de Lucas e Martha, Luciano Antunes.
Abandono
Infiltração, pinturas nas paredes danificadas, cupins, rachaduras nos ornamentos externos e telhado deteriorado são listados na vistoria realizada pelo Ippuc em 2015. O estado precário de conservação da Villa Campo Largo motivou um processo de notificação por obra irregular em UIP, que pode gerar multa aos proprietários. A prefeitura registra que a casa pertence à Clínica Especialidades Médicas Iguaçu Ltda. Os donos não foram localizados pela reportagem.

Segundo o IPPUC, há registros de que em 2002 a clínica funcionava no local em ótimas condições. Em 2008, uma fotografia mostra a casa sem uso, porém em razoável estado de conservação. Hoje, quem passa pela Praça Ouvidor Pardinho encontra a Villa Campo Largo abandonada.
*Especial para a Gazeta do Povo.