50tinha
Arquitetura
Siga o roteiro e surpreenda-se com a riqueza arquitetônica da Rua XV de Novembro

Prédios e detalhes arquitetônicos da Rua XV de Novembro e Rua Marechal Deodoro, em Curitiba. Foto: André Rodrigues / Gazeta do Povo | Gazeta do Povo
Há 50 anos, uma ação controversa do então prefeito Jaime Lerner levava à inauguração do que se tornou um dos mais famosos e conhecidos cartões-postais de Curitiba: a Rua XV de Novembro, que completa seu cinquentenário nesta quinta-feira (19).
Das crianças pintando no calçadão - que impediram o protesto de um clube de automóveis que era contrário ao fechamento da via para veículos à época - ao comércio de rua, da ligação das praças Osório à Santos Andrade, dos caminhos que levam às casas, serviços, encontros e reencontros, das floreiras sempre coloridas, das apresentações do Natal do Palácio Avenida. São tantos e diversos os usos ao longo dessas cinco décadas que é difícil encontrar entre os moradores da capital e turistas quem não tenha uma lembrança ou um local preferido na XV de Novembro.
Em nossa homenagem a essa jovem, que muito ainda tem a contribuir e ensinar à cidade, visto a diversidade - em muitos sentidos - que exala diariamente, HAUS recupera um passeio arquitetônico pela XV de Novembro, realizado na companhia do arquiteto Guilherme de Macedo, do escritório Lona Arquitetos, e do colaborador do escritório Breno Burrego, em um tranquilo feriado de carnaval. Confira!
O começo (ou o fim?)
O ponto de partida escolhido não foi o relógio da Praça Osório, a Boca Maldita ou o bondinho. Não estava na parte mais turística da rua. Para inciar a caminhada, eles optaram por uma parte mais próxima à Praça Santos Andrade, voltada ao comércio e que reúne em poucas quadras exemplares de vários momentos importantes da arquitetura de Curitiba. São construções art-déco, ecléticas, neo-góticas e modernistas convivendo lado a lado.

No cruzamento entre a XV e a Av. Marechal Floriano, em frente a um painel de Poty Lazzarotto, está localizado um edifício de esquina projetado por Rubens Meister, responsável pelo Teatro Guaíra. É possível perceber semelhanças com outras obras do engenheiro, como os pilares em cruz que também estão na Rodoferroviária, de sua autoria. “Outra marca de Meister é o uso dos materiais crus, ele não tenta escondê-los”, aponta Burrego. O recuo, obrigatório pelo Plano Massa para ampliar a área do pedestre, e o pé-direito alto para acomodar comércio no térreo também se fazem presentes.

Um pouco adiante, em direção à Santos Andrade, os dois edifícios da rede Marisa. Lado a lado, um é eclético, com uso de ferro na fachada, e, o outro, art-déco, cheio de geometrização e verticalidade. “Na época do ecletismo, ainda não havia tecnologia suficiente para instalação de grandes volumes saindo do prédio”, explica Macedo. Por isso, há apenas pequenas saídas com guarda-corpos em metal.


Seguindo o caminho, está um prédio de 1893 que sedia uma agência do Itaú. Eclético com traços neogóticos, traz elementos característicos do estilo, com destaque para as esquadrias de madeira nas janelas.

“A partir desse ponto, começa uma predominância de casarões das décadas de 1920 e 1930, bem eclética”, afirma Macedo. Um dos exemplos é o edifício que abriga a Confeitaria das Famílias.

Do outro lado da rua, dois edifícios grudados permitem uma comparação clara de estilos. Um, eclético, é uma junção de elementos de vários estilos, com arcos e floreiras em relevo. O outro tem a sobriedade do art-déco, com mais geometria. Neste último, que já abrigou as Livrarias Ghignone, a porta de madeira original foi mantida, mas não leva a lugar algum. Ao lado, uma placa com o poema “A Porta”, de Nireu Teixeira.


Adiante, no cruzamento com a Rua Barão do Rio Branco, quatro imponentes se encaram, cada um em uma ponta a esquina. Três edifícios art-déco de frente para um eclético. Um deles é a antiga sede do Clube Curitibano, com uma marquise de quase dois metros. Em frente, outro com a estética tem uma loja da Tim no térreo, com muita geometria e verticalização. “Nesse é legal perceber a apropriação do edifício: cada andar optou por um tipo de grade. Umas são horizontais, outras, verticais”, ressalta Macedo.

Ao virar para o sentido oposto da XV, outro edifício art-déco mostra como o concreto armado permitiu o aproveitamento das esquinas e a brincadeira volumétrica. Todos os três “encaram” o prédio eclético da outra esquina, com mais ornamentos e a inscrição da data de construção: 1926.

Sem sair do lugar, dá para ver o Edifício Augusto Hauer, uma das marcas de uma estética mais modernista na rua. Possui pilares em formato triangular e janelas maiores. Suas diferenças volumétricas promovem sombreamentos.

Adiante, um prédio que pode ser considerado proto-moderno, com janelas de pano inteiro de vidro e frisos que evitam que elas fiquem manchadas durante as chuvas. “Isso mostra um capricho na construção”, afirma Macedo.
