Arquitetura

Conheça o arquiteto japonês que cria casas inusitadas com papel, plástico e papelão

Luan Galani
31/12/2019 17:35
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Foto: Shigeru Ban Architects/Divulgação

*Entrevista originalmente publicada em 22 de julho de 2016.
O nome do arquiteto japonês Shigeru Ban, de 59 anos, é sinônimo mundial de criatividade e inovação. Seus tijolos são materiais simples do dia a dia para os quais todo mundo torce o nariz, como bambu, papel, plástico e papelão. Quando ocorrem desastres naturais, ele é sempre um dos primeiros a chegar para ajudar a construir casas, igrejas e centros comunitários com soluções hiper-regionais.
É assim desde os conflitos de 1994 em Ruanda, que o instigaram a criar a ONG Voluntary Architects Network, para se dedicar à construção de abrigos humanitários de emergência. Em 2014 foi laureado com o Prêmio Pritzker e desde então tem inspirado uma geração  de novos arquitetos. Confira entrevista exclusiva de HAUS com o arquiteto!
HAUS: O papel social da arquitetura é gritante no seu trabalho. Como você enxerga essa função do arquiteto?
Shigeru Ban: Sempre me senti um afortunado por conhecer as pessoas em momentos dos mais felizes de suas vidas: o de construir suas casas e tornar seus sonhos realidade. Contudo, penso que, se comparados a outros profissionais que trabalham com questões vitais, nosso trabalho peca em contribuição social. As habilidades precisam ser usadas em favor do outro. Muitos de nós trabalhamos para pessoas privilegiadas, que transformam dinheiro e poder visíveis com prédios monumentais. A arquitetura monumental pode ser simbólica para a cidade, e eu quero desenhar monumentos, mas eu também quero usar meu conhecimento para o público geral.
HAUS: Você é sempre um dos primeiros a chegar quando ocorrem catástrofes naturais para ajudar na construção de abrigos humanitários. Como começou essa sua aventura de partir em busca desse público mais geral?
Shigeru Ban: A cidade japonesa de Kobe havia sido atingida por um terremoto em 1995. Eu quis ver se poderia fazer alguma coisa pelas vítimas de desastres naturais. Então comecei a me envolver com o projeto de abrigos de emergência de papel do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
Abrigos levantados com tubos de papelão, bambus e entulhos de construção na Índia em 2001.  Foto: Kartikeya Shodhan/Shigeru Ban Architects
Abrigos levantados com tubos de papelão, bambus e entulhos de construção na Índia em 2001. Foto: Kartikeya Shodhan/Shigeru Ban Architects
HAUS: Muitos jovens arquitetos veem o seu exemplo e querem contribuir da mesma maneira. Qual a dica para os iniciantes?
Shigeru Ban: Os estudantes sempre me consultam sobre isso e eu digo: primeiro atinjam um bom grau de competência como arquitetos. É bom se interessar pelos trabalhos humanitários. Mas se não tiver habilidades profissionais suficientes, não há como ser muito útil para as organizações. Então, primeiro trabalhe e depois volte.
HAUS: A sua grande marca arquitetônica está na valorização de materiais simples do dia a dia nos quais ninguém mais presta atenção. Qual importância de olharmos também para esses materiais que ninguém quer?
Shigeru Ban: A teoria diz que dá para usar materiais fracos para construir edifícios sólidos e duradouros. Prefiro usar materiais que são descartados pelas pessoas ou que ninguém ainda tenha usado. Outros arquitetos não fazem isso porque demanda muito tempo e energia para experimentar novos materiais e obter as devidas permissões para as construções.
HAUS: Até que ponto você acredita que suas raízes japonesas moldaram o seu trabalho?
Shigeru Ban: Nasci no Japão, mas aprendi arquitetura nos Estados Unidos. Nunca observei as construções separando-as do ponto de vista geográfico. Além disso, não acho que exista essa distinção na arquitetura moderna.
Casa de Clube do Campo de Gold Haesley Nine Bridges, na Coréia do Sul. A estrutura é de madeira em grelha hexagonal.<br>Foto: Hiroyuki Hirai/Shigeru Ban Architects
Casa de Clube do Campo de Gold Haesley Nine Bridges, na Coréia do Sul. A estrutura é de madeira em grelha hexagonal.
Foto: Hiroyuki Hirai/Shigeru Ban Architects
HAUS: Apesar disso, a arquitetura feita na Ásia, e especialmente no Japão, tem uma linguagem arquitetônica muito forte, com um altíssimo nível de experimentação. A que se atribui isso?
Shigeru Ban: Acredito que o sistema japonês de incentivo é o que permite produzir bons arquitetos. Explico: o Japão é o único país em que a classe média paga, mesmo que pouco, para os arquitetos criarem uma arquitetura interessante. Em outros países, só os ricos constroem casas projetadas por arquitetos. E mais: os japoneses parecem ser os únicos capazes de viver em harmonia com tamanha diversidade de estilos de vida.
HAUS: Vários dos seus projetos foram feitos para ser temporários. Você tem algum interesse particular nesse tipo de construção?
Shigeru Ban: A distinção entre permanente e temporário não tem significado hoje. Se construirmos algo de concreto para ser permanente, contratados por uma companhia, temos de ter em mente que ele pode ser destruído em 30 anos, por exemplo. Por outro lado, a Igreja de Papel de Kobe, que foi levantada para ser temporária, está lá até hoje. Só mudou de lugar: foi para Taiwan 20 anos depois porque as pessoas pediram. O que faço é uma arquitetura para ser amada pelas pessoas, e isso é tudo.
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