A década de 1980 deu início a um conflito ideológico dos designers europeus que perdura até hoje. De um lado, profissionais que defendem o design que privilegia a funcionalidade. De outro, criadores que apostam em uma liberdade criativa maior e em diferentes soluções para cada desafio. E um dos grupos que segue essa segunda filosofia é o movimento Novo Design Alemão, que tem como um dos principais representantes o arquiteto e designer Volker Albus, 64 anos. O alemão esteve em Curitiba para a abertura da mostra de design Anders Als Immer – Algo diferente: Design Contemporâneo e o Poder das Convenções. Curador da exposição em homenagem ao ícone do movimento, ele falou com exclusividade à Viver Bem Casa & Decoração sobre sua carreira e o que esperar do design de produtos contemporâneo. A mostra fica aberta até 11 de agosto no Museu Oscar Niemeyer.
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O que o levou a estudar arquitetura e design?
Meu pai era arquiteto também. Por isso, foi uma escolha automática para mim. Ele era talentoso e tinha um pequeno escritório. Adorava vê-lo trabalhar. E, como arquiteto e designer, sem estar amarrado a um grande escritório, consigo ter a autonomia necessária para atuar em um campo abrangente de trabalho e conhecer o mundo inteiro.
Qual a inspiração e o objetivo da exposição que você organizou?
Veja, o design deve responder aos diferentes comportamentos sociais. E nós e nossos hábitos estão em constante mudança. Por exemplo, há 10 anos, não havia coffee to go na Alemanha. Agora, todo mundo lá toma café andando na rua. Ao pegar uma palavra isolada, como prateleira, por exemplo, logo surge uma concepção formada, relacionada com aspectos estruturais, decorativos e configurativos do objeto. Nesse caso, a prateleira sempre lembra algo em linhas retas e preso à parede. Temos uma concepção definida sobre o material e sua utilidade. Portanto, o objetivo é apresentar o inusitado, o questionamento, o humor e a criatividade ao desconstruir os objetos das convenções cotidianas.
Qual a sua opinião sobre o design de produto brasileiro? Você admira o trabalho de algum designer em especial?
É relativamente pouco conhecido o design de produtos brasileiro na Alemanha. Mas a presença dos produtos dos irmãos Campana é bastante forte lá. Mas admiro especialmente o trabalho dos arquitetos Sérgio Rodrigues e Oscar Niemeyer.
Na sua opinião, qual o maior desafio do design de produtos contemporâneo? Não se limitar apenas à liberdade artística?
Um dos maiores desafios é sem dúvida fazer um desenho tão bom que ele permaneça atemporal, de modo que o design atraia tanto a atenção que ninguém queira descartá-lo. Outros desafios que se impõem são a preocupação ecológica e os costumes locais. Me preocupa quando viajo para o sudeste asiático e vejo que os jovens designers tentam ser mais europeus que os europeus. É importante observar a sua própria cultura, as necessidades de seu próprio país. Isso vale para todos. E, na minha opinião, exigir uma liberdade artística maior, pura e simplesmente, não leva a nada. O bom design é aquele que faz um ótimo equilíbrio entre funcionalidade, configuração, material, estabilidade e preço.
Como deve ser pensado o design, então? Olhando para o próprio umbigo ou sendo global?
Depende do aspecto que você considera. Se for o material, é local. Tome o bambu, por exemplo. Ele é mais disponível e barato aqui no Brasil e na Ásia do que na Alemanha, onde ele não está presente naturalmente. Porém, a funcionalidade deve ser universal.
O senhor é um dos ícones do Novo Design Alemão. Que características daquele novo design ainda acham espaço atualmente?
Esse movimento dos anos de 1980 foi uma reação forte contra o funcionalismo do design, para o qual tudo deve ser padronizado, uniforme, com uma solução única para cada problema. Diria que é como uma colher para tudo. Então, o Novo Design Alemão foi uma reação a essa visão, tanto no desenho quanto no material. A principal característica que ainda reina é a ideia de desconstrução. Pense em uma mesa, por exemplo. Por que ela sempre tem que ser igual, só mudando a cor e o material? Por que não fazê-la diferente, com formas e áreas embutidas para livros, ou com um dispositivo que ajusta a altura dela conforme o usuário desejar?
Em que você está trabalhando agora e quais seus planos para o futuro?
Preciso pensar (risos). Estou trabalhando em um novo tipo de luminária sem fio, ainda darei aulas e estou preparando um livro de fotos, de cada lugar que visitei, pois acho que cada cidade tem um item de design que a caracteriza. Em Curitiba, é esse espaço, essa cesta para o lixo na frente de cada casa. Na Alemanha, fica tudo guardado, escondido. Me disseram que essa cesta tem a ver com o comportamento das pessoas e dos bichos. É verdade? (risos).
