Arquitetura
O italiano que ajudou a escrever a história da arquitetura sacra de Curitiba

No Seminário, a igreja projetada sem custos pela devoção da esposa à santa. Fotos: André Rodrigues/Gazeta do Povo | Gazeta do Povo
Por onde passavam os italianos em Curitiba, uma igreja ia sendo levantada. Várias delas saíram dos desenhos do arquiteto João De Mio, um italiano consagrado na construção de templos e campanários, e que colaborou no estabelecimento tanto da comunidade italiana quanto da Igreja Católica na capital.
Filho mais velho de um casal de imigrantes do Vêneto, De Mio largou a escola aos 13 anos para ajudar o pai no sustento da família, e logo se tornou construtor, mas sem abandonar por completo o estudo: autodidata, lia clássicos da literatura mundial, e tinha fascínio pela cultura greco-romana.

A busca por aperfeiçoar o próprio trabalho o aproximou da arquitetura, “talvez mais nobre profissão que existe”, como descreveu em relato da própria vida. Viveu em uma época de rápido crescimento populacional da capital, e intensa atividade dos italianos na colônia. “Grande parte dos imigrantes era católica, e disso surgiu grande demanda por paróquias para atendimento dos vigários, o que fez com que ele fosse requisitado para esta área”, descreve o professor de história contemporânea da PUCPR, Wilson Maske.

Inspirado por grandes nomes da arquitetura renascentista, como Andrea Palladio, De Mio adotou estilo neoclássico em suas produções. Basta ver a parte interna da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, construída em 1928, onde usou os tradicionais arcos e a intervenção de imagens sacras pintadas por Paul Kohl e Pedro Brutkoski, com quem trabalhou por longos anos.
No Umbará, De Mio foi chamado para projetar e supervisionar a construção da Paróquia São Pedro, mas o desentendimento com o padre na hora do acerto financeiro, que queria cobrar um valor muito alto pelas refeições durante o período da obra, fez com que De Mio fosse dispensado antes da finalização da construção.

Apesar disso, o dinheiro nunca foi o foco de De Mio, como conta o neto Amadeu Geara, responsável por registrar e publicar as memórias do nonno. “Era caridoso com as comunidades que não podiam bancar. Ele não enriqueceu com os trabalhos, mas não deixou de criar a família com conforto e mesa farta.”
O desprendimento era sempre justificado por algum motivo nobre, como quando projetou uma igreja no bairro Seminário sem cobrar, porque a esposa, Catharina Razzolini, era devota de Nossa Senhora Aparecida, a quem era dedicado o templo. Em uma carta enviada ao senador Flávio Guimarães nos anos 1950, o arquiteto registrou seu posicionamento em relação ao próprio trabalho: “Fiz da minha profissão um apostolado, e com muito ou pouco resultado, trabalhando nela estou no meu elemento, e encontro nela a razão do meu viver”.

Suas obras se espalharam por onde havia mais comunidades italianas. Um falava para o outro e lá ia o construtor para Campo Largo, Balsa Nova, Santo Antônio da Platina. Também se embrenhou no projeto de colégios, como o Sagrado Coração de Jesus e o Santa Terezinha, seguindo sempre a linha neoclássica.

“Os projetos ficaram marcados pelos arcos plenos nas janelas, frontões triangulares nas fachadas e pelas proporções matematicamente rigorosas. Também ficou conhecido pela construção de campanários independentes da estrutura da capela” explica a arquiteta Aline Bandil, especialista em restauração de igrejas.
Na lista de obras também estão a reforma da fachada da Sociedade Garibaldi, a construção do Círculo de Estudos Bandeirantes e do ateliê de João Turin. De Mio morreu aos 92 anos, em 1971. Ao fim da vida, seguiu escrevendo as memórias, orgulhoso de viver na terra de onde nunca quis sair, deixando um importante legado na construção da cidade.

* especial para a Gazeta do Povo