Arquitetura

La Pastina: o arquiteto que derrubou mitos e salvou imóveis históricos do PR

Luan Galani
17/06/2019 11:00
Thumbnail

La Pastina é reconhecidamente uma das maiores autoridades do patrimônio cultural paranaense. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo | Gazeta do Povo

O ‘leão de chácara’ da arquitetura do Paraná

Quer ver o Paper – fala-se ‘papér’, como diria Mazzaropi no melhor sotaque caipira – pê da cara? É chutar um significado ou fazer uma interpretação forçada de qualquer palavra de origem indígena. Para ele é coisa séria. Estuda o tupi-guarani há 20 anos. Quem não o conhece acha que o senhor de 72 anos e bigode à la Bismarck é algum antropólogo ou linguista. Sua biblioteca não deixa dúvidas: dicionários e mais dicionários de tupi-guarani e outras subfamílias linguísticas, e diversas obras sobre a cultura dos povos indígenas, com especial destaque para as de Mário de Andrade e Debret.
Mas isso não passa de hobby para o arquiteto José La Pastina Filho, reconhecidamente uma das principais autoridades do patrimônio cultural paranaense. O apelido da época em que vendia papel de parede para sobreviver ainda o persegue: Paper. Ele gosta.
Na foto José La Pastina Filho , grande nome da arquitetura do PR , que por muitos anos foi presidente do Iphan . Local: casa do La Pastina no Bacacheri . 06-06-2019
Na foto José La Pastina Filho , grande nome da arquitetura do PR , que por muitos anos foi presidente do Iphan . Local: casa do La Pastina no Bacacheri . 06-06-2019
Natural de Itararé (aliás, outro nome tupi-guarani), no interior de São Paulo, tomou gosto pela lida com a madeira com o pai, um italiano de Solerno que foi marinheiro e marceneiro. Aprendeu a fazer móveis e carrinhos de rolimã, e decidiu que queria ganhar a vida construindo casas. Formou-se em arquitetura pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1973, onde mais tarde tornou-se um dos professores mais queridos que já passaram pelos corredores do Politécnico. Seus pupilos garantem.
Também foi secretário-geral do Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios Arqueológicos, instituição ligada a Unesco com sede em Paris, e por 23 anos superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Paraná (Iphan/PR), até se aposentar em 2016. Sob sua batuta, ajudou a manter de pé o Teatro São João, na Lapa, e a Fortaleza da Ilha do Mel, para citar apenas alguns exemplos.
PRAIA DA FORTALEZA - ILHA DO MEL - PARANAGUA  29/01/11 - PARANA CADERNO DE VERAO  - Ponto Turístico da Ilha do mel  na foto  Praia da fortaleza  - Foto:  Walter Alves  / Agencia de noticias Gazeta do povo
PRAIA DA FORTALEZA - ILHA DO MEL - PARANAGUA 29/01/11 - PARANA CADERNO DE VERAO - Ponto Turístico da Ilha do mel na foto Praia da fortaleza - Foto: Walter Alves / Agencia de noticias Gazeta do povo

Caçador de mitos

Mas virou celebridade nacional depois de desmontar o mito de que as telhas coloniais eram feitas nas coxas de escravos. Rezava a lenda urbana que cada telha tinha um tamanho porque eram moldadas no corpo dos trabalhadores. Ele também acreditava nisso. Até que passou quatro meses do ano de 1976 percorrendo o estado de Santa Catarina em busca de telhas tradicionais de galpões antigos para a Fortaleza de Santa Cruz, na Ilha de Anhato Mirim.
“Eram mais de 20 mil. Eu só respirava aquilo”, lembra. Ficou íntimo das telhas como poucos oleiros. Descobriu um artesão bem velhinho e verificou, enfim, como eram feitas. As telhas precisam secar sob o sol de 10 a 15 dias, para só então ser enviadas ao forno para queima. O que inviabiliza a possibilidade de uma pessoa ficar todos esses dias com uma telha nas coxas debaixo do sol.
E recorreu à matemática: “[…]Tomamos as medidas das coxas de um homem de 1,80 m de altura e verificamos que, usando-a como molde, só seria possível a fabricação de uma minúscula telha de 36 cm de comprimento. Sem maiores preocupações com aspectos de anatomia humana, se estabelecermos uma simples regra de três, poderemos verificar que, para fabricar uma telha de 77 cm [como medem as tradicionais], precisaríamos contar com um escravo de 3,85 m de altura”, escreveu no artigo que ficou famoso, publicado originalmente na revista de Arqueologia da UFPR em 2006.
Na foto José La Pastina Filho , grande nome da arquitetura do PR , que por muitos anos foi presidente do Iphan . Local: casa do La Pastina no Bacacheri . 06-06-2019
Na foto José La Pastina Filho , grande nome da arquitetura do PR , que por muitos anos foi presidente do Iphan . Local: casa do La Pastina no Bacacheri . 06-06-2019
Tomou gosto pela coisa e resolveu enterrar outra história de vez. A de que as argamassas de cal utilizadas na construção colonial levavam óleo de baleia. “Se fosse assim, as baleias estariam extintas já no século 16”, brinca, munido de uma matemática precisa. Diz que usavam mesmo era azeite ou qualquer tipo de óleo animal. “Todos funcionam com a mesma eficácia”, diz orgulhoso.

Fã de brasilidades

La Pastina é aficionado pela cultura brasileira. Por muito tempo fez cachaça artesanal em casa, que era disputada a tapas por todos os colegas. Prepara peixada e barreado para nenhum chef botar defeito. Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já provou em uma de suas vindas a Curitiba. No início da Ditadura Militar, ajudou o jurista e advogado Carlos Frederico Marés de Souza Filho, que mais tarde viria a se tornar Procurador do Estado do Paraná (1981-2015), a fugir para o exílio.
“Nunca peguei em armas. Não gosto. Mas dei uma de guarda-costas dele durante todo o trajeto de carro até o Uruguai. Depois ele chegou a ir para o Chile e para a Dinamarca”, confidencia. Cachorreiro, há algum tempo abriu mão de ter boxers para colecionar vira-latas. Hoje são apenas dois: Adelaide e Raíu (em tradução livre do tupi-guarani, pretinho).
Mas seu maior trunfo de devoção à cultura brasileira talvez seja ter salvo uma casinha de madeira até então perdida em uma chácara no bairro Portão na década de 1980. Hoje o imóvel, sede do Iphan/PR, é considerado um dos exemplares mais importantes da arquitetura popular de madeira do Paraná. Pode perguntar para qualquer uma das boas cabeças que mexem com patrimônio na capital paranaense.
“Um dia eu passei na frente dessa casa. Estavam vendendo o terreno. Cheguei e perguntei o quanto a família queria só pela casa. Eles ficaram surpresos e me cobraram um valor simbólico. Lembro que eles perguntaram quanto eu poderia pagar. Eu disse que só tinha cerca de R$ 400 no banco. Toparam”, esclarece. Lutou por um terreno com a Prefeitura de Curitiba e conseguiu levar a casa para um espaço no Juvevê, onde permanece até hoje.
Fotos: Iphan/divulgação
Fotos: Iphan/divulgação
Imagens da série dos casarões que o caderno de Imóveis iniciou no último domingo. Na edição, vamos falar sobre o imóvel que é sede do Iphan. A ideia da matéria é resgatar a história do imóvel, sua utilização ao longo dos anos e as atividades que acontecem no espaço que é o escritório. As imagens mostram as características da construção de arquitetura polonesa.
Imagens da série dos casarões que o caderno de Imóveis iniciou no último domingo. Na edição, vamos falar sobre o imóvel que é sede do Iphan. A ideia da matéria é resgatar a história do imóvel, sua utilização ao longo dos anos e as atividades que acontecem no espaço que é o escritório. As imagens mostram as características da construção de arquitetura polonesa.
Agora foi chamado pela Justiça para dar um parecer técnico sobre a Casa Erbo Stenzel, que pegou fogo e foi demolida horas depois em 2017, na ação civil pública movida contra a Prefeitura de Curitiba e o prefeito Rafael Greca.
Ainda vamos ouvir falar muito do Paper. Kuekatureté, mboessara. Muito obrigado, mestre. Falei certo?

LEIA TAMBÉM: