Arquitetura

Inspiração modernista

Daliane Nogueira
28/02/2013 03:08
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Traços retos, formas geométricas e a escolha de materiais diferentes e recicláveis, além de um planejamento minucioso, caracterizam o trabalho do arquiteto paranaense Guilherme Torres. Natural de Cianorte, no noroeste do estado, o profissional mora em São Paulo há mais de 10 anos e caiu nas graças do mercado paulista de decoração. Hoje tem projetos em diversos estados e começa a trilhar carreira internacional.
Junto com sua equipe, Torres coleciona prêmios e projetos publicados em revistas internacionais. Com a consolidação do nome no design de interiores, o profissional passa a se aventurar no mercado de incorporação, projetando prédios para importantes construtoras.
Os projetos que assina têm como marca a leveza da arquitetura, com grande aproveitamento da luz natural; e a vanguarda da decoração, que acaba recebendo móveis contemporâneos assinados por ele. Curioso é perceber que por trás de um trabalho tão antenado está um arquiteto apaixonado pela arquitetura modernista, fonte na qual busca inspiração para seus projetos.
Na última visita que fez a Curitiba, no fim do ano passado, para um evento patrocinado pela marca de móveis Moss Para Casa, o arquiteto recebeu a reportagem da Viver Bem Casa & Decoração. Confira os principais trechos da entrevista.
Como e porque escolheu a arquitetura?
Quando eu era criança, morava em uma casa que achava linda. Teve um momento, quando eu tinha quatro anos, que nossa família precisou fazer uma mudança e na hora em que cheguei à nova residência fiquei chocado porque percebi claramente que nós tínhamos saído de uma casa grande para uma pequena, os móveis não cabiam nos lugares, foi um caos. Aquilo me incomodou profundamente, eu sentia vergonha daquela casa, achava ela escura, com pouca ventilação.
De certa forma isso gerou em mim uma obsessão por melhorar aquele espaço. Lembro de ler revistas de decoração procurando formas de mudar a casa. Era uma obsessão mesmo. Por essa história eu digo que a arquitetura não entrou na minha vida, ela saiu da minha vida.
Essa mesma observação levou você ao design de móveis também?
Com certeza, apesar de eu não ter a noção que existia a profissão de arquiteto ou designer. Sou do interior e na cidade (Cianorte) nem tinham arquitetos. Eu achava que eu deveria ser engenheiro. Mas tem uma passagem engraçada, porque quando eu tinha uns nove anos vi em uma revista um projeto e a foto do profissional do lado. Na hora eu falei: “Mãe eu já sei o que quero ser quando crescer.” Ela respondeu: “É engenheiro né filho.” Daí eu disse: “Não, eu quero ser Sig Bergamin. Eu quero fazer esse trabalho (risos)”.
Assim foi-se construindo minha relação com a arquitetura e o design. Aliás, adoro desenhar móveis, pois é onde eu tenho mais liberdade de expressão é outra forma de comunicação.
E como você agregou o conhecimento formal?
Eu me nutri de muita informação da área desde cedo. Quando eu entrei na faculdade me senti muito a vontade com a linguagem. Na universidade o que mais me encantou foi a História e a Teoria da arquitetura, que eram assuntos que eu não conhecia profundamente. Mas a respeito de processos projetivos eu já me sentia com muita intimidade porque sempre tive um questionamento muito grande com o espaço. Essa sensibilidade que eu percebi muito cedo foi muito importante para minha construção profissional.
Você gosta muito de trabalhar com uma linguagem modernista. Olhando para a arquitetura contemporânea, o que te incomoda?
Absolutamente tudo. Nós vivemos em uma sociedade da informação democratizada. Mas não observamos uma melhora na vida cotidiana. Você sai na rua e é tudo horroroso. Eu diria que isso é revoltante. Por exemplo, prédios neoclássicos não são bonitos, mas existem aos montes. Parece que inteligência e ganho capital não podem andar juntos.
Mas o pensamento da arquitetura está errado a começar pelo poder público. Por exemplo, qualquer prédio público é feito por licitação. Ou seja, compra-se uma propriedade intelectual da mesma maneira que se compra uma vassoura. A proposta mais barata, sem levar em consideração uma série de fatores, vai ser a vencedora.
E o que aconteceu com a arquitetura brasileira?
Vejo que o período da ditadura militar inibiu muito a liberdade de criação e ficamos estagnados. Mas novamente há uma questão política que nos impede de pensar a cidade no longo prazo. Quando muda uma gestão, muda toda a visão que se tem sobre cidade. Isso gera um empobrecimento muito grande.
E cada vez mais as pessoas deixam de discutir a cidade e passam a se preocupar somente com a própria segurança, buscando paraísos artificiais, como os condomínios-clube, onde se vende a ideia de que se está vivendo em outro país. Isso infelizmente é um fenômeno que beira o histerismo. Eu optei por não participar dele.
E como não participar disso?
Com bom senso. Fazendo uma leitura do que as pessoas precisam, de como elas querem viver. Tento criar um estilo. Sair dessa sociedade bege em que a gente vive. Claro que já fiz projetos assim, mas com o amadurecimento você começa a ver o que te difere. Eu gosto do underground, exponho minhas tatuagens, tenho um visual diferente. De certa forma meus clientes também são assim ou comungam de algumas ideias minhas.
Você se preocupa com o consumo consciente? Passa isso de alguma forma para seus projetos?
Eu acho que é preciso olhar para o devido valor das coisas, que vai além dos preços. Os símbolos da nossa sociedade são tão malucos e o consumo é tão desordenado que nos assusta. Tento começar os projetos pelo mais simples possível e incluir móveis e objetos que tenham durabilidade. Acho muito bacana você poder comprar coisas que vão te acompanhar pela vida e ter peças perenes que pertenceram a outras pessoas, em outra época. Isso é o valor do produto.
Voltando a falar sobre design, qual a sua visão sobre a produção brasileira?
O design brasileiro tem um gargalo que é o processo industrial. Todos os designers sofrem por não se ter indústrias fortes no Brasil. Muitos designers acabam pegando o processo artesanal e ampliando em escala. Há pouco maquinário disponível e o custo de produção é elevado.
Se pegarmos a história do design brasileiro antes dos (Irmãos) Campana, olhava-se para o design brasileiro como sendo uma coisa de índio. Os Campana levaram o nome do design brasileiro para o exterior e apontaram uma série de tendências. Eles têm um discurso que vem do uso de materiais ordinários, isso há 15 anos, quando ninguém falava disso. Hoje muitos profissionais têm essa consciência, mas nos falta industrialização para termos continuidade de produção.
A transição de Londrina para São Paulo foi determinante para que seu trabalho tivesse mais visibilidade?
Brinco que em cidade pequena não tem pico, tem morro. Eu cheguei na altura do meu “morro” muito rápido e ir para um mercado maior me possibilitou atender pessoas do Brasil inteiro, há um fluxo maior de ideias, de mão de obra, enfim, eu consigo trocar mais e desenvolver mais meu trabalho.
Sua ida para lá lhe proporcionou trabalhar com incorporação também? Como é esse processo?
Gosto de trabalhar em escala maior, porque me permite uma comunicação com um público mais amplo. Além disso, eu deixo algo para a cidade. Uma cidade como São Paulo, precisa de soluções cada vez mais interessantes, com bom planejamento, privilegiando o verde e o bem-estar da cidade. Acredito que interferências positivas na arquitetura têm reflexo nos índices de violência. É um compromisso que precisamos ter.
Como você observa as construções de interesse social. Há algum caminho para melhora-las?
A arquitetura é um instrumento de poder. Fica centralizada para poucos e não disponível para muitos. E há muito preconceito também. Eu já fiz um projeto piloto de ambiente popular com materiais incomuns, como cadeiras de papelão que eu uso na minha casa e que custa R$ 20. Mas eu fui muito criticado. Preferem colocar uma opção ruim de R$ 250. As pessoas não compreendem. E aqui eu incluo não os usuários, mas os responsáveis pelas construções. Podemos fazer uma construção civil muito mais barata no Brasil, com outros materiais e mais criatividade. Enquanto não mudar essa visão, não tem como melhorar. Com meu trabalho tento ir colocando pitadas de um novo pensamento.

Projetos de Guilherme Torres