Arquitetura

História que se renova

Daliane Nogueira
24/01/2013 02:28
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“Sempre que venho aqui tenho boas lembranças. São quase 30 anos de trabalho nesse imóvel.” Essas foram as primeiras frases da arquiteta Maria Helena Paranhos durante a conversa com a reportagem da revista Viver Bem Casa & Decoração no pátio central da Fábrika, local em que desenvolve projetos desde 1984. O arquiteto Paulo Pacheco é seu companheiro nessa jornada e também esteve no bate-papo.
A área onde hoje funciona o centro cultural com academia de ginástica, grupo de dança, escolas de idioma, além dos Juizados Especiais, abrigou de 1938 a 1980 a fábrica de fitas e bandeiras Venske, fundada por imigrantes suíços.
O trabalho de restauro, modernização e adequação das instalações fez com que os profissionais ficassem tão envolvidos com o projeto que os fez manter um escritório dentro do imóvel até o ano 2000. Confira os principais trechos da entrevista.
Como surgiu o projeto da Fábrika?
Maria Helena: Eu conheci essa fábrica há muitos anos, quando vim do Rio de Janeiro para Curitiba, em 1957. O engenheiro químico da fábrica era amigo do meu pai. Eu era pequena, mas lembro de ter visitado a fábrica algumas vezes.
Anos depois, em 1984, quando voltei de uma pós-graduação na Alemanha, fui procurada por uma amiga que veio com a ideia de abrir uma academia de ginástica na Fábrika. Nós visitamos o prédio, que estava abandonado. Lembro-me que a gente precisou pular o muro. Foi uma aventura mesmo.
A partir do projeto das academias, começamos a pensar no conjunto da fábrica. Um dos pavilhões (onde hoje funcionam os Juizados Especiais) ainda estava repleto de máquinas, parecia um filme. Elas estavam intactas, com a fiação pronta para funcionar. Eu fiquei impressionada e imaginei que era preciso ter um registro disso. Então fui atrás do fotógrafo Orlando Azevedo e pedi que ele fizesse as fotos. Nessa época nós já estávamos conversando com os proprietários para ver o que poderia ser feito.
Em algum momento houve a ideia de transformar esse imóvel em um empreendimento?
Maria Helena: Como não é um imóvel tombado, claro que essa ideia existiu. Mas prevaleceu a vontade de preservar o imóvel. Nós, obviamente, buscamos uma forma de os proprietários terem ganho financeiro, para que o custo de manter o imóvel não seja algo deficitário. Nesse processo, ainda em 1984, 1985, eu iniciei uma conversa com o Instituto Goethe, que na época estava instalado no Solar do Rosário e tinha a pretensão de sair de lá.
Veio uma comitiva da Alemanha para verificar a sede e foi aprovada a instalação no prédio que tem entrada pela rua Reinaldino S. de Quadros. Com a vinda do Goethe, a Aliança Francesa também se interessou e veio para a Fábrika. Depois a escola de inglês Cebel manteve-se aqui por um período.
Dentro da Fábrika tinha ainda um anfiteatro onde houve concertos importantes para Curitiba. Além disso, o prédio dos fundos virou um laboratório para teatro. Alguns grupos famosos passaram por aqui, como Os Satyros.
Depois, mais para o fim dos anos 1990, vieram os Juizados Especiais, que ocupam mais de 1.000 metros quadrados. Porém, a parte cultural não parou por aí. Atualmente há o Cervantes (Espanhol) e uma escola de dança.
Qual os principais desafios de um projeto como esse?
Maria Helena: Talvez o principal desafio seja o proprietário ser conquistado pela ideia. Outro ponto é ter bons inquilinos, que ajudem a viabilizar. Foi o caso do Goethe, que acabou trazendo outras escolas.
Na parte física, é preciso identificar um valor nessa arquitetura e ter o cuidado de restaurar, percebendo que é possível um novo uso com a estrutura original. Nós imaginávamos como poderia ser, mas foi preciso paciência e bastante trabalho para transformar esse imóvel. Nós abraçamos o projeto do começo ao fim.
A preservação é exatamente isso: você não descaracterizar a arquitetura, mas atualizar o uso. E nós conseguimos isso com a compreensão dos proprietários que fizeram questão de valorizar nossas ideias e o imóvel. Eles tem grande interesse em manter, são apaixonados pelo imóvel.
Esse foi um projeto que trouxe muito prazer para a gente, foi uma ótima escola e é um projeto vivo. E esse multiuso do espaço é muito interessante.
Paulo: É importante dizer que os pavilhões da fábrica foram todos recuperados. O madeiramento, que tinha vários pontos de apodrecimento, foi restaurado. As telhas foram todas lavadas uma a uma com escova de aço. É tudo original. Houve um cuidado grande de preservação e manutenção.
Essa arquitetura fabril é de um requinte e qualidade impressionantes. O rigor da construção é interessante. Há uma trama de pilares e vigas de concreto e uma série de treliças de peroba, madeira de alta qualidade. É um projeto de arquitetura e engenharia fantástico, muito bem feito, especialmente pensando na época. Inclusive a ocupação do terreno foi feita de forma bem pensada.
Nota-se que esse é um projeto contínuo. O que vocês imaginam daqui para frente?
Maria Helena: Quando nós iniciamos o projeto da Fábrika ela não tinha um dos terrenos (o da entrada pela rua Fernando Amaro). Quando este espaço foi adquirido, nós vislumbrávamos fazer um estacionamento subterrâneo para ter uma grande área para investir em outros atrativos culturais, como teatro, por exemplo. São projetos que ainda dependem de amadurecimento e conversa.
Nós também gostaríamos de registrar a história da Fábrika em livro, com as fotos do Orlando Azevedo e os nossos relatos. A história da Fábrika é muito interessante.
Pouca gente sabe, mas foi uma das primeiras fábricas de Curitiba que aceitava mães solteiras para trabalhar, tendo um berçário e creche para as crianças. Nós gostaríamos de contar toda a história e também o processo de transformação, como todas as memórias.
Como vocês avaliam o ganho para a cidade com o projeto de restauração da Fábrika?
Maria Helena: Quando a Fábrika começou a ser restaurada toda a cidade estava se desenvolvendo em direção ao Batel. E esse espaço começou a trazer um olhar mais comercial para esse lado. Essa era uma região essencialmente habitacional. As escolas e a academia funcionando aqui, foram um indutor de desenvolvimento para essa região.
Paulo: Eu acredito que um dos grandes ganhos é o local permanecer público, onde as pessoas podem circular e conhecer esse espaço. É um ganho social, sem dúvida.
Vocês têm outros projetos parecidos?
Paulo: Nós fizemos o projeto do Teatro da Classe (atualmente Teatro José Maria Santos) na Treze de Maio, que infelizmente não foi executado como a gente imaginou. Também era uma fábrica, que tinha uma estrutura metálica feita na Bélgica. Foi um projeto bem interessante e a forma de trabalho foi parecida. Atualmente estamos trabalhando em um projeto para a preservação de indústrias cerâmicas.
Normalmente, preserva-se somente as chaminés. E nós estamos fazendo estudos para preservar os pavilhões das fábricas também, transformando-os em pizzarias, panificadoras, fazendo um espaço de convívio.
Vocês consideram que há incentivo para a preservação de imóveis em Curitiba?
Paulo: Têm surgido novos mecanismos para quem tem áreas verdes e edifícios históricos, mas não é o suficiente. Vê-se muito casario antigo abandonado porque não é vantajoso para o proprietário preservar. É necessário intensificar essas políticas.
Maria Helena: Na área comercial essa preservação é mais fácil porque os proprietários, como aconteceu na Fábrika, podem continuar com o patrimônio, valorizá-lo e promover outros usos. Além disso, há formas de negociar com a prefeitura. Para esse imóvel, por exemplo, nós conseguimos isenção de IPTU para os pavilhões da frente que tem valor histórico, cultural e arquitetônico.
Perfis
Nome: Maria Helena da Rocha Paranhos. Idade: 61 anos. Onde nasceu: Rio de Janeiro.
Nome: Paulo César Braga Pacheco. Idade: 53 anos. Onde nasceu: Curitiba