A importância do desenho a mão (que está desaparecendo) na arquitetura
Em uma típica tarde de inverno curitibano, no ano de 2002, frente a uma plateia de 300 estudantes, um senhor de 95 anos de idade traça linhas contínuas em folhas de papel branco penduradas em um quadro negro. O desenho é simples, com linha trêmula, fácil de compreender, chega a ser icônico. Cada traço revela e resume uma arquitetura mundialmente conhecida. Trata-se de Oscar Niemeyer, um dos mestres da arquitetura do século 20, que durante suas viagens de carro para a construção de Brasília costumava olhar as nuvens no céu procurando desenhos de catedrais e edifícios.
No exemplo, o desenho com toda sua pureza, é comunicação, expressão, fala e sentimento, poucas linhas traduzem toda a complexidade de cada obra arquitetônica. Estamos falando de edifícios icônicos como o Museu de Niterói (MAC), o Congresso Nacional e o próprio Museu Oscar Niemeyer (MON) que estava então, naquele dia, sendo inaugurado.
Apesar de toda a poesia envolvida junto aos traços de Niemeyer, o desenho à mão em arquitetura parece cada vez mais estar sendo esquecido e deixado de lado frente à concorrência desmensurada das tecnologias digitais. Perdemos, assim, a impressão digital do arquiteto e é aqui que reside a maior força do ato de desenhar. Esta força de expressão a qual necessita estar impressa no papel, com a linha trêmula, que percebe a variação de força, criando linhas ora mais espessas, ora mais finas, que se torna descontínua e com isso marca no papel um ato humano.

Arquitetos, de 2018.
A evolução das técnicas de representação não pode e não deve ser justificativa para a decadência de uma arte tão nobre à profissão. No campo das artes a história deixou suas marcas em processos artísticos extintos e que agora buscam ser resgatados. Muito da história grega que se conhece hoje vem de uma arte há muito tempo já extinta. Trata-se da pintura em vasos a qual declinou fortemente no início do século 5 a.C. Amphora, Hydria e Kantharos eram alguns dos típicos vasos que, produzidos em diversos tamanhos, estavam associados a uma forma e uma função (transporte de líquidos).
Perto de 600 a.C., Atenas dominava o Mediterrâneo exportando os vasos e a arte de artistas locais. Esses procedimentos evoluíram de uma pintura preta sobre o fundo natural até pinturas com figuras vermelhas sobre fundo preto, representando figuras humanas, deuses e mitos gregos. Mesmo com a limitação das pinturas em duas dimensões, os desenhos eram representados com feições, ação, poses, gestos e emoções. Por volta de 320 a.C. a arte da pintura sobre vasos se tornaria uma arte morta.

A história grega relatada mostra como uma simples necessidade (carregar líquidos) foi além de sua mera função para conter em si também informação em forma de arte. Assim, forma e função atuaram de maneira conjunta para o desenvolvimento de uma técnica de desenho. Contudo, a forma foi uma das características que determinou a morte desta arte, afinal, a pintura, já evoluída, não poderia mais ser representada nos vasos, curvos, sendo as paredes planas das construções superfícies mais “adequadas”.
A forma não eliminou a função já que os vasos continuaram a ser utilizados, mas a forma aniquilou a arte da pintura em vasos e assim esta técnica de desenho se perdeu. Assim, cabe aos arquitetos, desde os mais novos, buscar valorizar e resgatar a fundo o desenho à mão como ato básico de comunicação e de intenção da nossa profissão, para que esta também não se perca. Costumo falar que o desenho à mão pode falar e expressar algo. Pode mostrar um juízo de valor, ou seja, pode revelar como é a pessoa que segura o lápis. Ao olharmos um quadro de Van Gogh é possível sentir o peso de cada pincelada. Estamos falando de um desenho denso, profundo, com sentimento, reflexo de uma época e de uma pessoa que estava em turbulência.
Também ao analisarmos o desenho de Tarsila do Amaral podemos sentir as linhas e as formas suaves, arredondadas, puras, como que demonstrando uma calma inerente ainda que tratando de temas profundos ao nosso país. Para a arquitetura o desenho é a ferramenta do projeto e assim mostra uma intenção, afinal, como disse Vilanova Artigas “ninguém desenha apenas pelo desenho”. Seja um projeto de
uma instalação artística, seja uma arquitetura, ou mesmo uma cidade, é a ação intelectual que está em jogo. Quando desenhamos, atacamos o imponderável, e a arquitetura de hoje, da época do espetáculo, necessita muito deste desenho com ‘’vida’’, que foge ao genérico, e que busca profundidade.
Não sejamos aqui simplistas, não falaremos de regras ou dogmas, contudo realmente acredito que o desenho verdadeiro, profundo, sem necessariamente representação com o mundo real, mas com o mundo imaginado pode ajudar a arquitetura a recuperar esta capacidade crítica que vem perdendo e com isso também ajudar a própria sociedade a melhorar o seu modo de viver coletivamente em nossas cidades. Afinal, lembrando o que disse Paulo Mendes da Rocha, ‘’a cidade não é fenômeno, é ação, projeto’’, e assim é desenho.
*André Prevedello é arquiteto, urbanista, músico e artista. Fundador e diretor do escritório AP Arquitetos, com projetos e prêmios no Brasil, América do Sul e Europa. Procura manter prática e pesquisa caminhando juntas compreendendo cada projeto como um estudo teórico e prático. Acredita profundamente na arte como uma crítica responsável por revelar a maneira como a sociedade se desenvolve.